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Serra: Revolta de Carrancas ou Levante de Bella Cruz

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A década de 1830, no Brasil, foi bastante conturbada. D. Pedro I abdicou do trono em favor de seu filho de apenas 5 anos de idade sendo, então, o país, governado  pelo sistema de Regências. Período em que uma grande instabilidade política e de tensão social se instalou em todo território. Duas grandes correntes das elites políticas disputavam o poder: os Liberais Moderados (monarquistas que consideraram D.Pedro I Absolutista) e os Caramurus ou Restauradores (defendiam a ideia da volta de D. Pedro ao poder).

Na primeira metade do século XIX o tráfico humano internacional registrará um aumento significativo na entrada de africanos no país, para o trabalho escravo, ocasionando um aumento significativo da população escravizada no Império. Sendo, quarenta e oito por cento (48%) deste contingente, absorvido por Minas Gerais, tamanha sua dependência pela mão de obra escrava, para o trabalho nas lavouras e nas minas de ouro. Fator que gerava uma preocupação e medo, permanente, entre os senhores do poder, das autoridades, da elite e dos grandes proprietários de terras de possíveis revoltas de escravizados. Situação que trazia à lembrança de todos a experiência haitiana (1804) que estabeleceu seu governo, após expulsar e assassinar seus algozes, na primeira e única revolução negra por independência e liberdade. É bom lembrar, também, que este período foi caracterizado por vários planos de insurreição e várias rebeliões de escravizados, registradas e que atemorizaram o Governo de Regências.

Em 1750 a Coroa Portuguesa doou a João Francisco, português de São Simão Junqueira uma vasta sesmaria na região de Carrancas, Sesmaria que originou as fazendas de Campo Alegre e de Bella Cruz, ambas de propriedade de João Francisco Junqueira como ficou conhecido. Com a sua morte seus dois filhos dividiram e herdaram as suas terras. A Fazenda Campo Alegre passou para Gabriel Francisco Junqueira, político da Facção Liberal Moderada, deputado e Barão de Alfenas ( título concedido por D. Pedro II). A fazenda Bella Cruz, por herança, passou para o segundo filho José Francisco Junqueira. A influência da família Junqueira era percebida pelo número de escravizados que mantinham em suas propriedades. A maioria  provenientes da África Centro-Ocidental e de alguns poucos da África Oriental. Diversidade étnica que não impediu que se tornassem aliados.

A luta foi pela liberdade e o palco da revolta foi a província de Minas Gerais, mais precisamente, nas fazendas de propriedade da família Junqueira, na Freguesia de Carrancas onde é conhecida, hoje, por São Tomé das Letras – MG. Povoado que, na primeira metade do século, dos seus quase quatro mil habitantes (4000), sessenta por cento (60%) eram de origem africana e dentre os quais cerca de trinta por cento (30%) eram de pessoas livres (alforriadas).

A Revolta de Carrancas teve início nos 13 de maio de 1833, na Fazenda Campo Alegre de propriedade do Deputado Gabriel Francisco Junqueira, um dos principais políticos da Facção Liberal Moderada.

Na manhã do dia da revolta, tudo parecia estar normal na fazenda Campo Alegre, que estava sob os cuidados  e comando de Gabriel Francisco de Andrade Junqueira, filho do deputado que se encontrava ausente da fazenda, a serviço da política, no Rio de Janeiro. Ao meio dia, como era de costume, uma inspeção era feita na roça para supervisionar o trabalho dos escravos. Ao chegar na roça,  Gabriel desceu de sua montaria e constatou que tudo estava dentro da normalidade (ilusória).

Mas ao recuperar a sua montaria Gabriel foi surpreendido por um grupo de revoltosos, liderados por Ventura Mina que o mataram com vários golpes de porretes na cabeça. Após terem golpeado e desfigurado Gabriel, os revoltosos se dirigiram para a Fazenda Bella Cruz, pois como era habitual, àquela hora da tarde, o pátio da Fazenda Campo Alegre era fortalecida por Capitães do Mato. Ao chegarem à Fazenda Bella Cruz, os revoltosos tiveram a adesão de outros escravizados, dando início a uma série de barbáries.

Parte do grupo permaneceu na Fazenda Bella Cruz para armarem uma emboscada para Manuel José da Costa, genro de José Francisco Junqueira que se encontrava na Fazenda Campo Alegre e que foi brutalmente assassinado no instante em que chegou à Fazenda. Os outros integrantes do grupo de revoltosos se dirigiram para a Fazenda Bom Jardim de propriedade de João Cândido da Costa Junqueira.

Como João Cândido já havia sido alertado dos acontecimentos, nas Fazendas Campo Alegre e Bella Cruz, trancafiou os seus escravizados nas senzalas, evitando, assim, uma possível adesão. Na Fazenda Bom Jardim, os revoltosos encontraram resistência por parte de seu proprietário, de seu pessoal e de alguns escravos de sua confiança. No conflito, Ventura Mina, João Inácio Firmino, Matias e Antônio Cigano perderam suas vidas.

O momento mais grave da Revolta teve a Fazenda Bella Cruz como palco. Os revoltosos invadiram a propriedade e investiram contra José Francisco Junqueira e sua esposa Antônia Maria de Jesus que se refugiaram em um dos quartos da propriedade e que, infelizmente, não conseguiram escapar. O vassalo Antonio Retireiro passou um Machado para as mãos de Manoel das Vacas que depois de desferir vários golpes arrombou a porta. Antônio Retireiro que estava armado desferiu um tiro mortal no rosto de José Francisco Junqueira. Todos os demais que estavam no quarto, como a esposa de  José Francisco, filhas e netas foram massacrados com requinte de crueldade.

Ana Cândida, viúva de José Francisco Junqueira, foi assassinada a golpes de foice no quintal da fazenda por Sebastião, Pedro Congo, Manoel Koaquim e Bernardo. Ana foi encontrada em estado deplorável, seu rosto desfigurado e decapitado. Além dela, duas crianças e um bebê de 2 meses foram mortos  com requinte de crueldade.

A Revolta de Carrancas ou Levante de Bella Cruz foi a mais violenta rebelião de escravizados do Sudeste do Império. Em todos os depoimentos dos revoltosos que participaram da rebelião, bem como testemunhas apontaram Francisco Silvério Teixeira de 73 anos pai de 14 filhos como mentor e incitador da insurreição. Devido ao fato de Francisco Silvério Teixeira ser compadre de Gabriel Francisco Junqueira, dava-lhe oportunidade de livre acesso a Fazenda Campo Alegre e a possibilidade de se encontrar com os escravos e tramarem os detalhes da rebelião, principalmente, com o seu líder Ventura Mina.

Os rebeldes de Carrancas foram severamente punidos. 16 foram condenados à pena de morte por enforcamento e executados em praça pública, em dias alternados, com o cortejo da Irmandade da Santa Casa da Misericórdia, na Vila de São João Del-Rei. Foi uma das maiores condenações coletivas à pena de morte aplicada a escravos, na história do Brasil Império.

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