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Lembrança de Lygia Fagundes Telles (1918 – 2022) (Parte 2)

Através do casamento com Goffredo, que ainda criança conviveu com Mário de Andrade, Lygia, teria contato com grandes nomes da política, das artes e da sociedade paulistana. Mas ela já era escritora e como o marido, também formada pelas Arcadas (Turma de 1945, ele da de 1933). Pois bem, Goffredo fora casado em primeiras núpcias, no ano de 1939, com Elza Bueno Xavier da Silva, a Zita, uma sobrinha de meu tio Affonso Bueno (descendente direto de Anhanguera II, patriarca de grande parte da gente bandeirante), que era casado com minha tia Alice Galembeck. Com Zita ele teve seu primeiro filho, ou melhor, seu primeiro Goffredo, pois o segundo seria com Lygia, com quem se casou um pouco mais tarde. Triste destino, tanto Zita como Goffredinho faleceriam cedo, deixando o pai e marido inconsolável, o que só mudaria quando conheceu Lygia de Azevedo Fagundes.

Lygia casou-se com seu primeiro marido, Goffredo, em 17 de abril de 1947, 02 dias antes de completar 29 anos. No registro de casamento sua data de nascimento é clara: 19 de abril de 1918, mesmo a imprensa toda e algumas entidades terem dado 1923 como o ano de seu nascimento. Lygia foi registrada no cartório de registro civil de Santa Cecília (São Paulo, SP) em 23 de abril de 1918 com 04 dias de idade. Poucos dias depois foi batizada na paróquia da Consolação em 03 de maio de 1918. Portanto, não faleceu no domingo 03 de abril com quase 99 anos e sim com quase 104 anos, extremamente longeva. Mas, a verdadeira idade de Lygia acabou vazando quando teve de juntar documentação a respeito da sua sucessão. Virou um segredo de polichinelo na Academia Paulista de Letras. Fora dali, poucos sabiam, creio que somente eu e o escritor e jornalista Gabriel Kwaw, meu confrade na Academia de Letras de Campos do Jordão. Sabia que ela era mais velha que minha tia avó, Myrthes, essa de 1920, pois tinham uma amiga em comum cuja idade oscilava entre 1919 a 1922: Cinzica Monti Rolli, também escritora, porém com breve atuação.

E falando na “Montanha Magnífica”, quando ingressei nessa prestigiada entidade, ‘apadrinhado’ por gente como Cecília Murayama e Oswaldo Sangiorgi, tive o prazer de conviver um pouco mais com Lygia, que reinava na cidade sempre ciceroneada pelo Arakaki Masakasu, o célebre secretário geral da Academia de Letras de Campos do Jordão, a qual me aproximou também de Gabriel Kwak. E o próprio Gabriel, viu uma vez Lygia (que votou nele, inclusive, para ingressar naquela entidade), comentando numa roda que estava rasgando muita coisa do seu arquivo, inclusive cartas, para que não atribuíssem a ela que tivesse namorado este ou aquele. Nélida Piñon o disse que o pouco arquivo que Lygia juntou – e doou ao Instituto Moreira Salles – foi por influência dela, Nélida, que “guarda tudo“, inclusive, notas de aula e várias versões dos seus romances. E no quesito namoro, Lygia namorou Moacyr Werneck de Castro.

Os primeiros livros de Lygia ela os renegou e se tornaram raridades, itens de colecionador, como ‘Porão e sobrado’, ‘Praia viva’ e ‘O cacto vermelho’. Agora, mais valiosos ainda. Descanse em Luz, Lygia Fagundes Telles, escritora e mulher – ofício e condição duplamente difíceis de contornar – que ouvia duzentas e noventa e nove vezes o mesmo disco, lembrava poesias, sonhava, inventava, abria todos os portões quando via a alegria instalada em si!”.

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Lembrança de Lygia Fagundes Telles (1918 – 2022)

O escritor Thiago de Menezes, da Federação das Academias de Letras do Brasil, homenageia a escritora com citações de suas lembranças pessoais da autora de ‘As Meninas’, ‘Ciranda de Pedra’ e ‘Antes do Baile Verde’, ainda afirmando a verdadeira idade da imortal da ABL e APL:

“Lygia teve uma vida regada a muita inspiração. E dizia, “existe uma palavra que saiu de moda e, no entanto, é insubstituível na terminologia da criação: a inspiração”. E acredito que essa mesma inspiração, fizeram dela, uma das mais importantes escritoras brasileiras. Assim como acredito que a sua inspiração acabou inspirando gerações de escritores, como marcou variadas gerações de leitores por décadas. Posso até dizer que fui um deles, pois o lado contista de Lygia é contagiante, a ponto de impulsionar a mente para deixar fluir a imaginação.
Pois bem, a verdade é que conheço, ou conheci Lygia, praticamente da vida toda. Desde a mais tenra infância, não só pelos livros que minha mãe, leitora voraz e bibliotecária, devorava, mas pela presença da mesma na cidade da minha infância, Araras (SP), onde ela passou boa parte de sua vida através dos laços que o casamento com Goffredo da Silva Telles Júnior, o grande jurista e professor de direito, impulsionariam entre a gente ararense com a qual ela conviveria anos seguidos.
Quando dona Carolina Penteado da Silva Telles fez 100 anos, eu, ainda menino e já militando no jornalismo, colaborando com os jornais Tribuna do Povo, de Araras, e Tribuna de Itapira, escrevi, nesse último, uma reportagem de página completa sobre o fato. Afinal, era a matriarca de uma das mais importantes famílias remanescentes dos tempos do baronato do café, cuja descendência teve origem em Fernão Dias Pais Leme. Dona Carolina era filha da famosa dona Olivia Guedes Penteado – verdadeira mecenas da arte brasileira e uma das impulsionadoras da Semana de Arte Moderna de 1922 – e proprietária da tradicional Fazenda Santo Antônio, em Araras. Propriedade rural essa, tão importante quanto foi a fazenda Empyreo, de Yolanda de Ataliba Nogueira Penteado, da mesma linhagem do pai de Carolina, Ignácio Penteado. Fora que Yolanda havia sido casada, em primeiras núpcias e antes de dourar o seu brasão com a epígrafe dos Matarazzo, com um Silva Telles. E foi através de dona Carolina, que Lygia se misturou à gente ararense, que havia se acostumado com a nata da intelectualidade artística que frequentava todas aquelas herdades.
A romancista e contista que recebeu os prêmios Jabuti, APCA e Camões, distinção maior em língua portuguesa pelo conjunto da obra, era, ainda, uma mulher de sociedade. Uma mulher do mundo. Do grande mundo e da velha São Paulo ‘quatrocentona’, como diria Tavares de Miranda, o colunista que foi imortal da Academia Paulista de Letras, a mesma entidade que engalanou suas portas para receber Lygia, que também seria recebida – glória maior – na Academia Brasileira de Letras, sendo a terceira mulher a ingressar naquele sodalício e ainda na Academia de Letras de Campos do Jordão e na Academia de Letras da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.