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Casamento sem fronteiras

 

Livro sobre união com estrangeiro expõe dores, riscos e alegrias dessas relações

Basta abrir o Instagram para se deparar com mulheres brasileiras em fotos de paisagens estupendas ou em seus cotidianos fascinantes de casadas com estrangeiros pelo mundo. Histórias que até poderiam soar como um conto de fadas moderno, se não fosse o lado B da realidade de lidar com o exótico dentro de casa. Tem glamour, mas também tem saudade, dor de ir embora, dificuldade de se comunicar com alguém que não fala seu idioma nas questões mais íntimas, entre outros desafios.

O tema e a vivência levaram a jornalista Liliana Bäckert a lançar o livro “Amores Internacionais: casei com um estrangeiro”. A obra se baseia na sua experiência de casamento de 16 anos com um alemão, na Suíça, em seus estudos sobre migração e em entrevistas com mais de 50 brasileiras, entre 24 e 55 anos, casadas com estrangeiros de 19 nacionalidades diferentes, além de especialistas diversos.  O resultado é um retrato das uniões entre brasileiras e homens de outros países e as inúmeras relações sociais construídas a partir desses encontros.

A jornalista Liliana Bäckert é a autora do livro “Amores Internacionais: casei com um estrangeiro” Foto: Divulgação

Com mestrado em Comunicação Intercultural pela Universidade da Suíça Italiana, Liliana expõe dores, riscos e alegrias dessas relações, abordando temas como racismo, feminismo, migração, adaptação a uma nova sociedade, reações familiares, vulnerabilidades femininas, criação de filhos no exterior, abusos psicológicos, tráfico de seres humanos, reinserção no mercado de trabalho, divórcio e guarda de menores.

“Eu queria dividir com os leitores as situações surreais que uma brasileira pode vivenciar ao se casar com alguém de outra cultura. Precisava contar que a vida se torna, no mínimo, mais complexa. Muita menina desconhece que precisará negociar valores importantíssimos para ela, mas considerados absurdos em outra cultura, como uma simples festa de aniversário de criança, por exemplo”, diz Liliana.

A paulistana Ana, casada com o eslovaco Mike, diz que ele se sente muito incomodado com o volume de sua voz. Odeia quando ela grita o filho no apartamento, em vez de se levantar e falar com ele diretamente. Ele confirma e diz que veio de um ambiente onde o silêncio era valorizado.

O que Ana faz é interpretado como falta de respeito na cultura do marido. “Na minha casa na Eslováquia, ouvíamos o tic tac do relógio”, conta. Mike, por outro lado, ama a proximidade e calor das famílias brasileiras. “Embora goste de silêncio, ele aprecia que eu pergunte como foi o seu dia quando chega do trabalho. Para ele, é demonstração de amor se interessar pelo seu cotidiano”, conta Ana.

Ana conta que, por vezes, não consegue se aprofundar em discutir algum tema porque precisa se comunicar com o marido em inglês. E ele se diz surpreso com a revelação, pois nunca tinha pensado que a língua ainda poderia ser uma barreira, apesar de a esposa dominá-la atualmente. Mas os dois lidam bem – e gostam – exatamente das diferenças. “Sabia que nunca iria me casar com um brasileiro”, diz Ana.