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Fundador e diretor de time amador que revelou Thiago Silva falam de projeto com jovens carentes no RJ

Mudar a realidade de crianças e adolescentes através do futebol. Esse é o propósito do Nacional Sport Club, time amador fundado em 1987 em Santa Cruz, no Rio. Nos quase 34 anos de história, muitos jovens tiveram suas vidas transformadas depois de passarem pela equipe, entre eles nada mais nada menos que Thiago Silva, zagueiro do Chelsea e da Seleção Brasileira. Foi no Nacional que o craque e outros tantos jogadores deram os primeiros passos.

O clube, que trabalha atualmente com cerca de 100 crianças e adolescentes divididos em várias categorias e que já soma mais de 60 títulos, nasceu da paixão por futebol do baiano Valdeck Lima. Natural de Salvador, o atual presidente do Nacional fundou o clube após se mudar para o Rio depois da morte da mãe. Valdeck e o seu braço direito, o carioca Vanilson Branco, ex-atleta e atual diretor do clube, falaram com o Jornal DR1 sobre o trabalho que desenvolvem, as dificuldades para manter o projeto de pé e sobre a felicidade de ver tantas vidas modificadas pelo esporte.

JDR1 – Como surgiu a ideia de formar o clube?

Valdeck – Isso vem de um sonho de criança, lá em Salvador. Depois que me mudei, resolvi fazer o time em Santa Cruz. O primeiro nome do clube foi Replay. Depois, mudei o nome para Ponte Verde. Só que passou um tempo, meu irmão conseguiu um emprego para mim no Banco Nacional, na Presidente Vargas, e os gerentes, sabendo do meu time, me deram um uniforme e, em homenagem a eles, coloquei o nome de Nacional no time.

JDR1 – A camisa eleita a mais bonita da história do clube foi justamente essa cedida pelos gerentes, há 26 anos, não é?

Vanilson – Sim. Ela representa o início de tudo, e o único que tem ela até hoje sou eu. Essa camisa tem história, tem título. A gente, inclusive, tá planejando fazer uma retrô para presentear a galera da velha guarda. Acho que já vesti uns 40 uniformes desse time, mas igual essa aí não tem. Essa eu guardo e pretendo até enquadrar e pendurar na nossa sede.

JDR1 – Como é a realidade das crianças atendidas pelo projeto?

Valdeck – Muitos chegam na beira do campo e dizem que não vão jogar, porque não jantaram ou não tomaram café. Isso me machuca. Muitos não têm casa, vivem em situação precária. Aí entra o meu lado paterno. Inclusive já botei 17 adolescentes para morar na minha casa. Se um dia a gente faltar, vamos estar entregando muitas crianças para a maldade. A realidade delas não é fácil, só quem convive sabe.

JDR1 – Como tem sido as atividades agora na pandemia?

Valdeck – Eu sou treinador também e, toda quarta, quinta e sexta, fico de 6h até 22h com as crianças. Com esse vírus, a gente está trabalhando dividido. A gente evita aglomerações, a gente exige máscara e álcool em gel.

JDR1 – Como o clube se mantém hoje?

Vanilson – A gente consegue captar recursos com os próprios membros da diretoria, com os pais das crianças, familiares, amigos, que ajudam com valor mensal as vezes. Uns podem dar, outros não. A gente pede para que a comunidade possa ajudar, porque a gente quer dar oportunidades para as crianças. Eu sempre falo para eles que não tem como saber se a pessoa será um advogado, um professor, se você não der oportunidades. Eu particularmente estou montando um projeto para a Lei de Incentivo ao Esporte, um projeto favorável de recursos, de despesas, pra ver se a gente consegue alavancar mais um pouco o projeto, ter uma sede maior, ter um campo melhor.

Crianças e adolescentes integram equipes do Nacional. (Foto: Reprodução/Instagram)

JDR1 – Como foi a passagem do Thiago Silva pelo clube?

Valdeck – Tive o privilégio, em 2000, de trabalhar com ele, capitão da Seleção Brasileira. Hoje, está no Chelsea, também já jogou no Milan. Um menino determinado, muito na dele, focado. Um cara que sempre tenho contato e ele sempre está perguntando o que o projeto está precisando: bola, colete, essas coisas. Ele sempre está nos ajudando. Ele sempre está incentivando as crianças, as vezes manda áudio para elas.

JDR1 – O que o Nacional Sport Clube representa hoje para vocês?

Valdeck – Depois dos meus cinco filhos, a coisa que mais amo, tirando meus irmãos também, é o Nacional. É minha pele, minha razão de viver. Vou para a feira vender estrume, faço faxina, pinto casa, o que me chamar, para ter dinheiro para o projeto. A gente empaca em situações financeiras, por falta de ajuda, mas continuamos lutando. Meu sonho é pode formar mais jogadores, porque o esporte tem poder para mudar a realidade dos jovens. Eu falo para todo mundo que, se eu um dia eu faltar, nunca deixem esse time morrer.