Esperei a poeira baixar. Decidi aguardar o furor político passar para que a paixão estivesse acompanhada estritamente do futebol e não dos holofotes, palanques e narrativas dos entes políticos do Brasil. Com os ânimos mais calmos na praça pública, é hora de debater com sobriedade o alarde criado em torno da Medida Provisória sobre o fim das casas de apostas esportivas no país.
Há um discurso catastrofista ecoando pelos corredores dos grandes clubes: o de que o fim das bets decretaria a falência imediata do futebol nacional. Trata-se de uma falácia perigosa e míope.
Em primeiro lugar, registro a minha postura: sou contrário às bets. Não se trata de moralismo, mas de acreditar, sobretudo na ciência. Os malefícios das apostas à saúde mental, financeira e social da população já são amplamente comprovados por estudos científicos. O vício em apostas (ludopatia) destrói famílias e drena a renda de quem menos tem.
Além disso, a promessa de que a regulamentação das apostas traria “transparência” ao esporte ruiu rápido. Muito antes do boom das plataformas digitais, o futebol brasileiro já acumulava cicatrizes de fraudes, esquemas de arbitragem e manipulação de resultados. O que as apostas trouxeram foi a pulverização do risco: cartões amarelos encomendados, escanteios casados e atletas cooptados para beneficiar esquemas silenciosos. A ganância dos bilhetes premiados feriu de morte a imprevisibilidade, a verdadeira alma do jogo.
Dizer que sem o dinheiro das apostas os clubes brasileiros vão entrar em insolvência é ignorar a própria história do esporte.
As casas de apostas passaram a dominar as camisas e os patrocínios másters no Brasil apenas em 2019. Façamos uma conta simples de matemática e memória: o futebol profissional no Brasil foi instituído na década de 1930.
Será mesmo razoável crer que 8 anos de dinheiro inflacionado de apostas são mais determinantes para a sobrevivência do nosso futebol do que 86 anos de história soberana, títulos mundiais e paixão popular?
A entrada ostensiva desse capital teve um efeito colateral claro: inflacionou o mercado da bola de forma artificial. Salários, luvas e transferências atingiram patamares irreais, sustentados por uma fonte de receita volátil e eticamente questionável.
O fim desse ciclo não significa o fim do futebol; significa o retorno à responsabilidade de gestão. Os clubes brasileiros possuem pilares financeiros sólidos e legítimos que sempre moveram engrenagens milionárias:
Patrocínios de marcas idôneas: Empresas do setor produtivo, tecnologia, bens de consumo e serviços continuam querendo se associar à maior paixão nacional;
Bilheteria: estádios lotados e a força presencial do torcedor;
Sócio-torcedor: a adesão direta de quem ama o clube e contribui mensalmente para a sua sustentabilidade;
Direitos de transmissão e mercado da bola: a revelação e venda de talentos, matéria-prima que o Brasil produz como nenhum outro país no mundo. Além dos valores de cotas de TV, das possíveis ligas e da CBF.
Por fim, fica a provocação que todo amante do esporte deve se fazer: será que a emoção do torcedor só existe se houver uma aposta casada no celular?
A vibração do gol, a tensão do acréscimo e o grito de campeão nasceram da paixão pura, da herança familiar e da identidade com a camisa. O futebol brasileiro não precisa de bancas de jogo para existir. Ele precisa de gestão séria, respeito ao torcedor e integridade dentro de campo.



