O caso de vazamento de informações para o CV envolvendo um policial militar cedido ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) foi detalhado em relatório final da Polícia Federal encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF). O documento aponta que Luciano da Costa Ramos Junior, lotado no 5º BPM (Gamboa) e cedido ao Judiciário por cerca de oito anos, teria repassado dados sobre operações e processos judiciais a integrantes do Comando Vermelho.
De acordo com a investigação, o policial mantinha contato frequente com Gabriel Dias Oliveira, conhecido como Índio do Lixão, apontado como um dos chefes da facção e atualmente preso em Bangu 1, na Zona Oeste do Rio. A PF afirma que foram identificadas conversas desde maio de 2025 nas quais Luciano alertaria o traficante sobre o andamento de processos e possíveis medidas judiciais contra ele e outros faccionados.
Segundo o relatório, o policial teria utilizado sua posição no TJRJ para compartilhar informações estratégicas, incluindo o envio de imagens de documentos em elaboração. A dinâmica, conforme a PF, teria se repetido até a véspera da Operação Zargun, deflagrada em 2 de setembro de 2025, que investigou o envolvimento de agentes públicos com o Comando Vermelho.
Na ação conjunta da PF com o Ministério Público Federal, o Ministério Público do Rio e a Polícia Civil, mais de 15 pessoas foram presas. Entre os detidos estava o ex-deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Jóias, investigado por suposta intermediação na compra e venda de drogas, armamentos e equipamentos destinados ao Complexo do Alemão.
O relatório destaca que, na noite anterior à operação, Luciano e Índio do Lixão trocaram duas ligações de áudio por aplicativo de mensagens, com duração de pouco mais de nove minutos no total. Para a PF, o contato indicaria tentativa de confirmar se haveria ação policial no dia seguinte.
A investigação sustenta que, diante da negativa atribuída ao policial, o traficante teria buscado confirmação com TH Jóias, que teria informado que a operação ocorreria. Ainda segundo o documento, durante audiência de custódia, o ex-deputado teria mencionado que a fonte da informação seria Rodrigo Bacellar, então presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj).
Luciano foi alvo da Operação Tredo, em 8 de dezembro de 2025, que resultou na prisão de policiais militares investigados por repasse de dados à facção. Já Rodrigo Bacellar foi preso dias antes na Operação Unha e Carne, sob suspeita de vazamento de informações.
Em nota, o advogado Luiz Felipe Alves e Silva, que defende Luciano da Costa Ramos Júnior, declarou:
“O próprio Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro já reconheceu que Luciano não possuía qualquer informação privilegiada ou acesso direto a qualquer autoridade”.
Segundo a defesa, “o Ministério Público afirmou ainda que “Luciano parecia atuar vendendo informações que não possuía ou que já foram objetos de decisão, fazendo que eles acreditassem que ele tinha alguma relevância”.
Já o advogado Daniel Bialski, que representa Rodrigo Bacellar, afirmou que “inexiste qualquer elemento probatório para pretender lhe imputar qualquer participação em ilicitude e ou vazamento, ao contrário, só há ilações desamparadas”. A defesa acrescenta que o indiciamento é “arbitrário e abusivo”.
O advogado de TH Jóias também negou a participação de seu cliente em atividades criminosas e afirmou que ele não teve acesso a informações vazadas.
A Polícia Federal sustenta que as investigações revelam uma rede de articulação entre agentes públicos e integrantes da facção criminosa, hipótese que ainda será analisada pelo Judiciário. O caso segue em andamento e pode ter novos desdobramentos conforme o avanço das apurações.
A repercussão do relatório amplia o debate sobre infiltração do crime organizado em instituições públicas e mantém o caso sob atenção das autoridades e da sociedade.





