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Voz da Justiça: O eleitor cansou? O silêncio nas urnas e o desencanto com a política

Foto:  Antonio Augusto/Ascom/TSE
Foto: Antonio Augusto/Ascom/TSE

Entre a abstenção, a desconfiança e a participação, o comportamento do eleitor brasileiro revela uma relação mais complexa com a política — e coloca uma questão incômoda para a democracia: quando o cidadão se afasta, o que acontece com o espaço público?

Há um silêncio que não se mede apenas pelo número de cadeiras vazias em uma reunião política ou pela ausência de bandeiras nas ruas. Ele aparece também quando o eleitor deixa de acompanhar debates, abandona discussões públicas, desconfia das instituições ou simplesmente decide não comparecer à urna.

Mas será que o eleitor brasileiro está cansado da política? A pergunta é legítima, mas a resposta não é simples.

Nas eleições municipais de 2024, a abstenção alcançou 21,71% no primeiro turno e 29,26% no segundo, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em outras palavras, milhões de eleitores deixaram de votar. O dado chama atenção, mas, isoladamente, não permite concluir que exista um processo generalizado de apatia política: ausência pode resultar de desinteresse, mas também de questões práticas, circunstâncias pessoais ou outros fatores. 

Ao mesmo tempo, há sinais de distanciamento que ultrapassam a presença física nas urnas. Pesquisa do DataSenado realizada em 2024 com 21.808 brasileiros mostrou que uma parcela significativa declarou não acompanhar os assuntos ou leis em debate no Congresso. O levantamento também apontou que 40% dos entrevistados não se identificavam como sendo de direita, esquerda ou centro. 

Esse cenário sugere uma mudança importante: talvez o problema não seja simplesmente falta de interesse pela vida pública, mas uma relação diferente com a política.

O cidadão pode estar distante dos partidos e, ainda assim, profundamente envolvido com temas políticos. Pode rejeitar discursos tradicionais, mas participar intensamente de debates nas redes sociais. Pode desconfiar de políticos e continuar defendendo causas, cobrando serviços públicos e discutindo decisões que afetam sua vida cotidiana.

Há, portanto, uma diferença entre desencanto com a política institucional e desistência da participação cidadã.

Essa distinção será especialmente relevante em 2026. O Brasil terá 158.765.543 eleitores aptos a votar nas eleições gerais, segundo o TSE. O eleitorado cresceu em relação a 2022, mostrando que, paralelamente às discussões sobre desinteresse, também existe expansão do universo eleitoral. 

A questão, então, talvez não seja apenas quantas pessoas irão às urnas, mas por que irão, por que deixarão de ir e o que esperam encontrar na política quando participarem.

Existe ainda outro desafio: informação. Pesquisa do DataSenado revelou que 72% dos usuários de redes sociais entrevistados haviam visto, nos seis meses anteriores, conteúdos que suspeitavam ser falsos. O ambiente digital ampliou o acesso à política, mas também tornou mais difícil distinguir informação, opinião, propaganda e desinformação. 

Uma democracia não depende de entusiasmo permanente. Depende, sobretudo, da possibilidade de participação, contestação, informação e escolha.

Por isso, talvez seja cedo para dizer que o eleitor brasileiro simplesmente cansou. O que os dados permitem afirmar é algo mais complexo: a relação entre cidadão e política está em transformação.

E esse pode ser o verdadeiro desafio de 2026. Não apenas convencer o eleitor a comparecer à urna, mas compreender por que tantos se afastam, o que alimenta a desconfiança e como reconstruir espaços de participação capazes de fazer o cidadão perceber que a política não acontece apenas nos palácios, nos partidos ou nas campanhas.

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