O que aconteceu com o cão Orelha tem se tornado comum nas madrugadas e transmitido para grupos nas redes sociais
Durante a madrugada, atividades em jogos online, chats e redes sociais frequentados por crianças e adolescentes revelam um lado sombrio. O monitoramento envolve desafios violentos e transmissões ao vivo de crimes graves.
Entre os conteúdos observados estão cenas de abuso sexual, automutilação e, com frequência, tortura e assassinato de animais. Essas ações são registradas e transmitidas em tempo real dentro de comunidades virtuais fechadas.
Quem tem feito essa averiguação é o Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), da Polícia Civil de São Paulo. O grupo foi criado em 2023, inicialmente para investigar ataques a escolas — naquele ano, o Brasil registrou 12 ocorrências desse tipo. No entanto, as apurações revelaram uma estrutura digital mais ampla, organizada e recorrente.
A partir do mapeamento de autores, vítimas e ambientes online, os investigadores identificaram padrões como discursos de ódio, hierarquias internas e sistemas de recompensas baseados na prática da violência. O trabalho do Noad começa, em geral, pela observação silenciosa: agentes se infiltram nas comunidades para coletar provas sem alertar os envolvidos.
Segundo a delegada, os episódios de violência contra animais são frequentes. O caso do cão comunitário Orelha, espancado até a morte na Praia Brava, em Florianópolis, gerou repercussão nacional, mas, de acordo com a polícia, não se trata de um episódio isolado. Situações semelhantes ocorrem quase diariamente nas comunidades monitoradas.
De acordo com Salvariego, em algumas noites são registrados dois ou três casos de zoossadismo, enquanto em outras o número pode chegar a cerca de 20 episódios, envolvendo principalmente cães e gatos. A investigação aponta que a motivação dos autores está associada à busca por reconhecimento, status e visibilidade dentro dos grupos, sem outro objetivo aparente além da própria violência.
No dia 27/01, outro caso chamou a atenção: o cachorro comunitário Abacate morreu após ser baleado de forma intencional em Toledo, no Paraná. A polícia local investiga o crime.
Para a juíza Vanessa Cavalieri, da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, a tortura de animais praticada por jovens evidencia o crescimento de atos de violência extrema nessa faixa etária. Em entrevista à BBC News Brasil, ela destacou a relação entre esses comportamentos, a dessensibilização progressiva à violência e o uso da internet sem supervisão familiar adequada.
Segundo a magistrada, a exposição contínua a conteúdos violentos reduz o impacto emocional dessas imagens, tornando-as gradualmente aceitáveis para quem assiste. Esse processo pode levar à transição do consumo passivo para a prática direta da violência.
Em uma das comunidades monitoradas pelo Noad, uma adolescente foi submetida a humilhações, abusos sexuais e automutilação durante uma transmissão ao vivo assistida por centenas de pessoas. As transmissões costumam atingir maior audiência entre 23h e 3h da manhã, reunindo de 600 a até mil espectadores simultaneamente.
As investigações indicam que essas comunidades não operam na chamada dark web, mas em plataformas acessíveis por aplicativos comuns em celulares, tablets e computadores. Segundo a delegada, os crimes acontecem na chamada “internet de superfície”, utilizada cotidianamente por milhões de usuários.
Entre as plataformas monitoradas, o Discord se destaca pela concentração de núcleos extremistas. Criado em 2015, o aplicativo permite comunicação por texto, voz e vídeo e conta com mais de 200 milhões de usuários ativos mensais no mundo. O acesso aos servidores costuma ocorrer por meio de convites, o que dificulta a identificação externa dessas comunidades.
O Discord informou anteriormente à BBC News Brasil que mantém política de tolerância zero para atividades ilegais, exige o cumprimento de suas diretrizes por administradores e moderadores e afirma ter equipes dedicadas ao mercado brasileiro para identificar e remover conteúdos nocivos.
A atuação da polícia ocorre de forma infiltrada. Quando uma violência está em andamento e não é possível localizar a vítima a tempo, a primeira medida é solicitar à plataforma o bloqueio do servidor utilizado. Em seguida, os dados são preservados para dar continuidade às investigações e à responsabilização dos envolvidos.





