Aprendi ao longo da vida que todo ser humano nasce ostra. Não por vocação marinha, mas por necessidade existencial. Somos sensíveis demais para o mundo que nos recebe e logo entendemos que sentir tudo tem custo. O tempo faz seu trabalho silencioso: lança areia. Frustrações, ausências, afetos adiados. Para sobreviver, fechamos a concha. Chamamos isso de maturidade. Muitas vezes, é apenas cansaço bem organizado.
A serenata surge quando a alma está protegida demais para continuar viva e ferida demais para se abrir sozinha.
É nesse território que atuo há 25 anos como músico e fundador da Serenata & Cia, levando música a lugares onde o entretenimento não costuma entrar: hospitais, lutos, aniversários silenciosos, despedidas, reconciliações tardias. Não canto para plateias, mas para pessoas em estado bruto. E essa experiência me permite afirmar: a música verdadeira não adorna a vida — ela a atravessa.
A serenata não pede licença. Entra como o grão de areia que a ostra jamais convidaria, mas sem o qual não existe pérola. Quando a música começa, o controle falha. A compostura tropeça. A concha se abre e o que estava escondido aparece.
O que vejo repetidamente é que as pessoas não choram pela música. Choram porque alguém parou. Olhou. Dedicou tempo e presença num mundo que quase nunca faz isso. A serenata não cria emoções: ela revela as que estavam guardadas.
Uma homenagem desmonta os personagens. O adulto racional reencontra o filho confuso. O durão descobre que precisa de abraço. Não é drama. É verdade escapando.
A música não resolve a vida, mas reorganiza o caos. Não apaga a dor, mas a torna habitável. Uma canção dedicada diz, sem discurso: “Você importou. Ainda importa.” E isso é profundamente subversivo num mundo que trata pessoas como descartáveis. A maioria não está cansada da vida, mas de atravessá-la sem ser vista.
Depois de centenas, talvez milhares de serenatas, afirmo sem hesitar: ninguém passa por uma delas intacta. Algo cede. Algo amolece. Algo lembra ao corpo o que a mente tentou esquecer. As pessoas se recordam de quem amam, de quem foram antes de endurecer, de quem ainda podem ser.
É por carregar todas essas histórias — atravessadas ao longo de 25 anos — que resolvi escrever o livro “Fredi Jon — O Cantador de Histórias”. Não como vaidade pessoal, mas como partilha necessária. Porque experiências assim não podem ficar restritas a quem esteve presente. Precisam circular, ecoar, alcançar quem ainda não sabe nomear o que sente.
A música passa. A noite segue.
Mas quem foi atravessado por esse som nunca mais fecha a concha do mesmo jeito.





