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Barricada Zero: criminosos foram avisados sobre ações antes do governo anunciar

Foto: Reprodução
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O programa Barricada Zero, anunciado pelo governo do estado como uma força-tarefa contra obstruções instaladas por criminosos em comunidades, teria sido antecipado ao tráfico da Cidade de Deus cinco dias antes da divulgação oficial. Segundo conversas obtidas pelo GLOBO, um homem apontado como policial militar do 18º BPM (Jacarepaguá), conhecido como Bigode Mexicano, repassou detalhes sobre ações, datas e uso de maquinário aos criminosos.

De acordo com a matéria apurada pelo Jornal Extra, as mensagens analisadas teriam sido trocadas entre 28 de setembro e 1º de dezembro de 2025, em um grupo de WhatsApp chamado “PAZ CDD”. Ao todo, foram 162 mensagens, nas quais o suposto agente aparece orientando traficantes sobre operações policiais e repassando informações atribuídas a um superior, chamado nas conversas de “chefe”.

De acordo com a reportagem, o alerta mais importante ocorreu em 12 de novembro, quando policiais do 18º BPM, junto ao 2º Comando de Policiamento de Área, atuavam na retirada de barricadas na Gardênia Azul. A ação teria funcionado como uma espécie de preparação para o programa que seria anunciado oficialmente em 17 de novembro.

Em áudio enviado aos criminosos, Bigode Mexicano teria explicado que a operação de retirada de barricadas se estenderia por tempo indeterminado e teria como foco áreas como Gardênia Azul e Cidade de Deus. Ele também teria afirmado que os avisos aconteceriam com pouca antecedência, conforme a chegada das máquinas ao batalhão.

Ainda segundo as conversas, traficantes passaram a cobrar informações mais detalhadas sobre a programação das operações. Em determinado momento, um dos criminosos questionou por que o suposto superior não conseguia avisar com ao menos um dia de antecedência. Bigode respondeu que ficaria “na infra”, expressão usada no grupo para indicar que permaneceria atento às movimentações.

No dia em que o Barricada Zero foi anunciado pelo governo, o homem voltou a aparecer no grupo para informar que o maquinário chegaria ao batalhão em 19 de novembro. Depois, teria antecipado que a primeira ação na Cidade de Deus ocorreria em 24 de novembro.

As mensagens também indicam uma tentativa de reduzir os impactos das operações. O suposto PM teria pedido que as barricadas retiradas não fossem recolocadas por alguns meses, alertando que a insistência poderia provocar novas ações policiais na região.

Na véspera da primeira operação do programa na Cidade de Deus, em 23 de novembro, ele teria informado aos traficantes que seis retroescavadeiras e três caminhões haviam chegado ao batalhão. Durante a madrugada seguinte, criminosos passaram a se movimentar para esconder materiais ligados ao tráfico e acompanhar a chegada das forças de segurança.

A reportagem aponta que olheiros monitoraram, em tempo real, a saída de blindados, caminhões e máquinas do 18º BPM em direção à comunidade. Ao longo do dia, integrantes do grupo atualizavam a localização das equipes policiais e a movimentação das operações.

Após a retirada das barricadas, o governo informou que 593 toneladas de obstáculos foram removidas e que sete pessoas foram presas em ações realizadas no Rio, Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Queimados e São Gonçalo. Mesmo assim, segundo as conversas, pontos de venda de drogas voltaram a funcionar na Cidade de Deus após a saída das equipes.

Esse retorno teria causado incômodo no superior mencionado por Bigode Mexicano. Em um áudio, o suposto PM afirmou que a exposição de criminosos armados após a operação teria prejudicado os policiais envolvidos no acordo.

Em resposta, um traficante identificado nas mensagens como Jovem Cristo reclamou da cobrança e afirmou que o papel dos policiais seria apenas avisar sobre as ações. Ele também citou gastos da facção e sugeriu que havia pagamento de propina em troca das informações.

No dia 27 de novembro, Bigode Mexicano teria voltado ao grupo para pedir que os criminosos removessem lixeiras usadas para bloquear ruas da comunidade. Segundo ele, a manutenção dos obstáculos poderia provocar novas operações e gerar repercussão na imprensa.

Após tomar conhecimento dos diálogos, a Polícia Militar informou que a Corregedoria da corporação abriu um procedimento para investigar o caso. Em nota, a corporação afirmou que não tolera nem compactua com desvios de conduta e que pune com rigor os responsáveis quando os fatos são comprovados.

O caso amplia a pressão sobre o programa Barricada Zero e levanta questionamentos sobre a segurança das informações operacionais em ações de combate ao crime organizado no Rio. Agora, a investigação deverá apurar se houve vazamento interno, pagamento de propina e participação de agentes públicos no repasse de dados ao tráfico.

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