Jornal DR1

O Cantador de Histórias: Quando a festa julina virou serenata caipira

Festa julina

Era julho, mês de pipoca estourando na panela, fogueira iluminando os rostos caipiras e bandeirinhas balançando ao vento frio. Fomos até Interlagos para uma serenata especial para o Seu Francisco, que completava 75 anos de vida naquele dia. Chegamos preparados para tocar músicas românticas, afinal, a filha dele queria surpreendê-lo com emoção.

Mas havia um detalhe: o quintal estava tomado por uma animada festa julina. Barracas de canjica, chapéus de palha, sanfona cantando alto e crianças correndo com o rosto pintado de bigode e pintinhas. Planejamos ficar na parte coberta e iniciamos a serenata.  Mas, no meio da primeira música ouvimos:

— Olha a cobraaaa!

— É mentiraaa!

A quadrilha não parava. E cada vez que tentávamos cantar, o animador gritava algo novo, o sanfoneiro puxava outra moda e o povo pulava forró. Seu Francisco, coitado, tentava prestar atenção, mas não segurava o riso ao ver as crianças dançando em volta, disputando quem tinha o chapéu mais engraçado.

A filha se aproximou, rindo:

— Gente, muda tudo. Não vai dar certo o que planejei. Vamos entrar no clima da roça?

Sem pensar duas vezes, improvisamos. Começamos com “Moreninha Linda”, abrindo alas para a nostalgia. Depois emendamos “Festa na Roça”                                                         Foi quando o sanfoneiro da festa resolveu se aproximar e disse:                                    

— Posso acompanhar vocês?                                                                                                            

E aí ficou bom demais. O sanfoneiro mandava muito bem, o sax fazia dueto caipira, o violão puxava o repertorio e a cantora seguiu com “Vida de Viajante”, “Esperando na Janela” e “Sola da Bota” O povo esqueceu as barracas e formou roda, batendo palmas, dançando xote, rindo e celebrando a vida pulsante.

No meio de tanta alegria, paramos um instante para dizer:

— Essa festa é pro Seu Francisco. 75 anos de estrada, de trabalho, de família, de amor. Cada ruga sua é história, cada olhar é gratidão. Francisco nos lembra que a vida não é só feita de calmaria, mas de festas barulhentas, de dias difíceis, de superação e, acima de tudo, de amor.

Ele sorriu com o olhar marejado e feliz por tudo aquilo que estava sentindo E nos disse ao final:

— Ganhei a serenata mais bonita da vida… com gosto de improviso e sensibilidade

Naquele dia, fomos embora refletindo. A vida não se resume ao que planejamos. Ela é feita de improviso, de risos inesperados, de gente que chega pra somar como aquele sanfoneiro que entrou na música e ajudou a celebrar a grande data. É isso que fica: a beleza de viver em comunidade, de cantar junto, de honrar quem nos abriu caminho até aqui.

Porque a música muda, o repertório se adapta, mas os valores verdadeiros permanecem: gratidão, amor, amizade, alegria e respeito. Certamente as festas juninas de Seu Francisco tiveram um novo significado a partir daquela data, seus olhos nos disseram isso.