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O Cantador de Histórias: O Amor, a serenata e o último suspiro da flanela

Foto: Gerada por IA
Foto: Gerada por IA

Dia dos Namorados de 2007. Quase às sete da manhã, Zona Norte de São Paulo. Francisco tinha uma missão nobre: declarar seu amor à namorada, Manuela. Flores, bombons e mensagens de celular eram pouco. Ele queria música, surpresa e emoção. Queria uma serenata. E foi aí que entrei em cena.

Porque toda grande história de amor precisa de um protagonista romântico e, eventualmente, de alguém desesperado procurando um banheiro. Enquanto Francisco se preparava para declarar seu amor, meu organismo decidiu fazer uma declaração própria, e, ao contrário dele, não aceitava esperar. Meu intestino resolveu participar da serenata. Foi quando avistei uma padaria.

Naquele instante, deixou de ser uma simples padaria. Tornou-se santuário, hospital, pronto-socorro e última esperança da música brasileira.

Entrei correndo:

— Moça, posso usar o banheiro?

— Pode.

Fui.

Mas cometi um erro estratégico: perguntei se podia usar o banheiro, mas esqueci de perguntar se tinha papel. Não tinha, e descobri isso tarde demais.

Enquanto Manuela provavelmente acordava pensando em amor, carinho e Dia dos Namorados, eu travava uma batalha épica pela sobrevivência.

Então liguei para Paulo, o saxofonista:

— Paulo! Pelo amor de Deus! Arruma um jornal! Papel! Qualquer coisa!

Paulo revirou o carro. Procurou em todos os lugares.

Nada.

Até encontrar uma coisa: uma flanela.

Não era uma flanela qualquer. Estava no carro havia anos. Tinha limpado instrumentos, equipamentos, violões e sabe-se lá quantas outras coisas.

Era uma veterana de guerra.

E naquele momento recebeu uma missão para a qual jamais havia sido preparada.

Enquanto Francisco preparava uma declaração de amor para Manuela, uma humilde flanela entregava a própria vida em nome da arte.

Sem aplausos. Sem flores. Sem registro fotográfico, mas com heroísmo.

A flanela morreu como viveu: a serviço da música. Depois da operação, voltei para o carro e seguimos para a missão. Chegamos até Manuela, a música começou e a serenata aconteceu.

Ela se emocionou com cada canção, cada palavra, cada nota. Para ela, havia apenas música, amor, surpresa e emoção. Ela jamais imaginaria que, poucos minutos antes, nos bastidores daquela serenata romântica, acontecera uma verdadeira operação de guerra,e que uma flanela havia dado a vida pelo amor de um casal. Anos depois, veio a melhor notícia: Francisco e Manuela se casaram.

Então, pensando bem, aquela serenata deu muito certo.

Quanto à flanela? Poucas podem dizer que foram sacrificadas para ajudar uma serenata que terminou em casamento. Às vezes, é preciso fazer grandes sacrifícios em nome do amor.

E, em certas manhãs de Dia dos Namorados…o sacrifício pode ser uma flanela.

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