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O Cantador de Histórias: O Que nos ilumina quando tudo se apaga

A escuridão 2

Era um sábado frio. Na noite anterior, um temporal havia deixado marcas pela cidade: postes no chão, ruas alagadas, semáforos apagados. A cidade parecia ter acordado de um pesadelo.

Recebi um pedido de Dona Lúcia. Ela queria que eu cantasse para Dona Gertrudes, sua sogra, que completava 80 anos. Eu poderia ter desistido diante daquele cenário. Mas serenata, para mim, nunca foi apenas chegar, cantar e ir embora. Às vezes, é justamente quando as coisas dão errado que a música encontra seu verdadeiro lugar.

Peguei meu violão e fui. Quando cheguei ao prédio, outra surpresa: não havia energia elétrica. Elevadores parados, corredores escuros, gente tentando iluminar a própria vida com a lanterna do celular.

Dona Lúcia me recebeu na garagem. Havia um churrasco improvisado e algumas pessoas tentando manter a alegria acesa. Mas Dona Gertrudes estava no sexto andar. Ela e outras senhoras não tinham condições de descer pelas escadas.

A festa estava embaixo. e a aniversariante em cima. Olhei para aquelas escadas e pensei: talvez a serenata precisasse mudar de endereço.

Então falei:

— Pessoal, vamos subir. Eu começo a tocar e vocês aparecem depois. Vamos fazer uma surpresa para ela? Vamos nessa

Seis andares, devagar, sem elevador. Sem iluminação adequada. Apenas celulares, lanternas e a disposição de algumas pessoas que abraçaram o desafio.

Quando chegamos ao sexto andar, parei diante da porta, segurei o violão e comecei a tocar a música preferida de Dona Gertrudes.

Eu não sabia exatamente o que aconteceria. Do outro lado da porta, ela ouviu os primeiros acordes.

E aconteceu uma coisa que já vi muitas vezes em uma serenata: a música encontrou uma lembrança antes mesmo de encontrar uma palavra.

Ela apareceu. Estava emocionada. E, atrás de mim, começaram a surgir os familiares. Um rosto, depois outro. Sorrisos tímidos, olhos marejados, abraços.

Ela olhou para todos nós e disse baixinho:

— Que bom…vocês vieram… Sim. Nós tínhamos ido.

Mas, naquele momento, percebi que não tínhamos subido apenas seis andares. Tínhamos atravessado lembranças e a incerteza da presença.

Cantamos ali mesmo. No corredor, dentro da sala, apertados, iluminados por velas e celulares.

Não havia decoração perfeita. Não havia cenário bonito. Não havia eletricidade.        Havia gente por isso foi inesquecível.

Quando terminei, Dona Gertrudes se aproximou, encostou o rosto no meu ombro e disse:— Eu esperei a noite inteira por isso. Mas pensando bem… talvez eu tenha esperado oitenta anos.

Guardei aquela frase comigo.

Naquela noite, eu entendi… quando a luz acaba, a gente descobre o que realmente ilumina. Não são as lâmpadas, nem os prédios, nem as janelas acesas. São as pessoas que permanecem. As que pegam o celular para iluminar um degrau, oferecem o braço para quem precisa e sobem seis andares só para que alguém não se sinta esquecido no próprio aniversário.

Naquela noite, meu violão não levou apenas música até Dona Gertrudes. Levou presença. Levou memória. Levou gente.

O milagre silencioso da música? ela não apaga a escuridão, ela encontra um jeito de fazer nascer luz dentro dela.

Porque existem noites em que a gente não precisa que alguém acenda a luz. Precisa apenas que alguém venha nos encontrar no escuro.

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