Levada de Angola ao Espírito Santo no fim do século XVII, ela liderou revoltas, fundou um quilombo e se tornou símbolo da luta negra pela liberdade no Brasil
Muito antes de a história oficial brasileira registrar heróis de pele negra, uma mulher cruzou o Atlântico acorrentada e transformou a dor do cativeiro em um dos mais poderosos símbolos de resistência do país. Zacimba Gaba, princesa do subgrupo étnico woyo, da nação Cabinda, no norte da atual Angola, foi arrancada de sua terra e trazida escravizada ao Brasil por volta de 1690. Desembarcou no Porto da Aldeia de São Mateus, no norte do Espírito Santo, onde a nobreza africana foi reduzida à condição de mercadoria — mas onde também começaria a nascer sua lenda.
Nascida em uma linhagem de poder, Zacimba já conhecia os códigos da liderança e da estratégia. Nas senzalas e nos canaviais em que foi obrigada a trabalhar, não se dobrou à lógica do engenho. Segundo a tradição e os registros que a mantêm viva na memória popular, ela organizou os cativos, articulou fugas e enfrentou capatazes, convertendo a submissão imposta em revolta planejada. Antes de escapar, guiou seu povo pela fazenda em uma insurreição que abriu caminho para a liberdade coletiva.
Da revolta surgiu o refúgio. Zacimba fundou um quilombo às margens do Riacho Doce, no território que hoje corresponde ao município de Conceição da Barra, próximo ao povoado de Itaúnas. Dali, comandou ações de libertação e resistência, acolhendo negros fugidos e enfrentando as forças coloniais que tentavam reconquistar os escravizados. Mais do que um esconderijo, o quilombo era um projeto de sobrevivência, autonomia e dignidade — a prova de que outra forma de existência era possível em meio à máquina escravista.
A trajetória de Zacimba Gaba foi, por muito tempo, apagada ou relegada às margens da história. Seu nome não figurava nos livros didáticos ao lado de Zumbi, Dandara ou Luísa Mahin, embora pertença à mesma genealogia de luta. Nos últimos anos, porém, escolas, universidades e comunidades quilombolas do Espírito Santo têm resgatado sua memória: há salas, projetos educativos, jogos pedagógicos e uma comunidade quilombola que levam seu nome, reafirmando a importância de contar essa história a novas gerações.
Lembrar Zacimba Gaba é reconhecer que a liberdade no Brasil foi conquistada, não concedida — e que mulheres negras estiveram na linha de frente dessa conquista. Sua figura, entre a princesa e a guerreira, segue inspirando a luta antirracista e a valorização da ancestralidade africana como parte essencial da identidade nacional.





