A primavera de 2009 me ensinou que a vida tem um senso de humor peculiar: às vezes, nos leva do choro ao riso sem sequer nos dar tempo de trocar de roupa.
Naquela manhã, minha cantora e eu havíamos participado de um velório. Nossa homenagem musical provocou desmaios, lágrimas e uma comoção profunda. Há momentos em que a música deixa de ser entretenimento e se transforma numa espécie de chave que abre gavetas secretas da alma. A saudade, quando reconhece sua melodia, não pede licença: entra, senta e faz morada.
À noite, porém, o roteiro era outro. Seguimos para Guarulhos, onde cantaríamos o amor de Leandro por Isabela, numa festa de casamento.
Ao sair da estrada, perguntei em um bar a um cidadão onde ficava o bar da Chiquinha. Um sujeito, aparentemente mais íntimo da bebida do que da geografia, respondeu:
— Fácil fácil…É só cinco minutos! Vai seguindo esse murão amarelo ai!
Seguimos. Quase dez minutos depois, nada do bar. Perguntei a um homem de bicicleta. A resposta foi idêntica: cinco minutos e o muro amarelo.
Mais sete minutos se passaram. Uma senhora confirmou a mesma informação.
Naquele instante, comecei a desconfiar de que aquilo era uma pegadinha de tv.
Parei e liguei para o contratante. Expliquei nossa peregrinação. Uns cinco minutos depois, apareceu ele, acompanhado de umas oito crianças. Cumprimentamo-nos e, apontando para trás de mim, anunciou: “O bar da Chiquinha é esse aí atrás, só que hoje tá fechado!”
Ali! O danado estava atrás de nós! Parece piada!!! O bar era apenas a referência para chegar à casa dele.
Entramos devagar na residência. Crianças ocupavam o encosto do sofá, outras se espalhavam pelo chão e casais se acomodavam pelo corredor. Era uma festa de casamento, com a alegria ocupando cada espaço disponível, afinal a serenata era a atração da noite.
Mas a noite ainda reservava outra surpresa: o cinegrafista e o iluminador pareciam ter escapado de uma máquina do tempo dos anos 1970. Cabelos com brilhantina penteados para trás, óculos enormes, calças boca de sino, colarinhos generosos e equipamentos que pareciam ter testemunhado a inauguração da televisão em cores.
Eu conhecia aquele figurino dos filmes, mas nunca o havia encontrado tão vivo diante de mim. Faltava apenas alguém perguntar se eu tinha visto o último capítulo da novela O bem Amado.
E ali estava eu, depois de cantar diante da morte, prestes a cantar diante de duas pessoas que apostavam na vida a dois.
Pensei em como somos criaturas contraditórias: choramos porque alguém partiu e celebramos porque alguém chegou; lamentamos o tempo perdido e prometemos uma eternidade que não sabemos medir.
Ficou claro naquela noite que a serenata oferece um muro amarelo, três pessoas com a mesma informação e um bar que estava atrás de nós o tempo inteiro.
Ser seresteiro é entender que não cantamos apenas para quem ama. Cantamos para lembrar que, entre a chegada e a partida, existe um intervalo precioso chamado vida.
E, se você se perder pelo caminho, não se desespere. Pode ser que esteja apenas dando a volta necessária para encontrar uma boa história.
Só não pergunte novamente onde fica o bar da Chiquinha. Corre o risco de descobrir que ele mudou de endereço, mas o muro continua lá.



