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Ambulantes transformam viagens de trem e metrô no Rio em um comércio sobre trilhos

Reprodução Jornal O Globo
Reprodução Jornal O Globo

Passageiros reclamam da circulação constante de vendedores, do barulho e até do uso de microfones dentro dos vagões; problema, porém, também expõe desemprego e falta de oportunidades

Quem utiliza diariamente trens e metrôs no Rio de Janeiro conhece bem a cena. Basta a composição começar a viagem para surgir o primeiro vendedor oferecendo doces, bebidas, acessórios e os mais variados produtos. Pouco depois, aparece outro. E mais outro. Em determinados horários e trajetos, a circulação parece não ter fim.

Para muitos passageiros, o que deveria ser apenas o deslocamento entre casa, trabalho, escola ou outros compromissos acaba se transformando em uma sequência ininterrupta de anúncios dentro dos vagões.

Há ambulantes que falam alto para chamar a atenção e outros que recorrem até a caixas de som e microfones. Alguns cantam ou fazem apresentações. Para quem tenta conversar ao telefone, estudar, descansar ou simplesmente ouvir música e assistir a um vídeo no celular com fones de ouvido, a experiência pode se tornar bastante incômoda.

Haja paciência!

Passageiro também tem direito ao sossego

É preciso considerar que o transporte público é um espaço coletivo. Quem paga a passagem tem direito a realizar o trajeto com um mínimo de conforto e tranquilidade.

O problema se torna ainda mais evidente quando vendedores passam um atrás do outro. Mesmo que cada abordagem dure poucos minutos, a repetição transforma o ambiente. Em viagens mais longas, o passageiro pode ouvir dezenas de ofertas até chegar ao destino.

A situação não deve ser analisada apenas como uma questão de tolerância individual. É necessário discutir organização, fiscalização e regras capazes de garantir que o transporte coletivo cumpra sua função principal: transportar pessoas com segurança e condições adequadas.

Do outro lado está a sobrevivência

Mas existe outra realidade que não pode ser ignorada. Por trás de muitos carrinhos, sacolas e caixas de produtos estão trabalhadores que encontraram no comércio informal uma maneira de colocar comida dentro de casa.

Nem todos estão ali por escolha. Desemprego, dificuldade de acesso ao mercado formal, baixa qualificação profissional e falta de oportunidades empurram milhares de brasileiros para atividades informais.

Simplesmente retirar essas pessoas dos vagões sem oferecer alternativas significa atacar a consequência e ignorar parte importante da causa.

É responsabilidade do poder público fiscalizar o transporte, mas também desenvolver políticas de geração de emprego e renda, qualificação profissional e inclusão produtiva. Programas que permitam a regularização de vendedores em espaços apropriados também podem representar caminhos mais equilibrados.

Nem proibição cega, nem vale-tudo

O desafio está justamente em encontrar equilíbrio. O direito de trabalhar e buscar a própria sobrevivência não pode significar que o passageiro seja obrigado a enfrentar barulho excessivo, abordagens sucessivas e apresentações sonoras durante toda a viagem.

Da mesma forma, o direito ao conforto não pode servir para tratar trabalhadores informais como se fossem simplesmente um problema a ser eliminado.

Trens e metrôs revelam diariamente uma contradição social do Rio: dentro do mesmo vagão estão pessoas cansadas indo ou voltando do trabalho e outras tentando desesperadamente conseguir algum dinheiro para sobreviver.

É preciso fiscalização, organização e respeito aos passageiros. Mas também é necessário emprego, oportunidade e dignidade para quem hoje depende dos vagões para garantir renda.

Até que o poder público consiga enfrentar os dois lados dessa questão, resta ao carioca conviver com um problema que já virou parte da rotina sobre os trilhos. E, entre uma oferta, um microfone e outra mercadoria anunciada, haja paciência!

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