A violência contra crianças representa uma das mais graves violações dos direitos humanos e um dos maiores desafios enfrentados pela sociedade brasileira. Todos os dias, crianças são vítimas de agressões físicas, psicológicas, sexuais, negligência e abandono, muitas vezes praticados justamente por aqueles que deveriam protegê-las. Cada episódio revela não apenas a crueldade do agressor, mas também as falhas da família, da sociedade e do Estado em assegurar a proteção integral garantida pela Constituição Federal.
O recente caso do menino Peterson Ykaro, de apenas seis anos, que morreu e cujo tio-avô é investigado como principal suspeito, comoveu o Brasil e trouxe novamente à tona um tema que exige reflexão e ação imediata. Independentemente da responsabilização criminal, que deve ser apurada pelo devido processo legal, essa tragédia evidencia a necessidade de fortalecer os mecanismos de prevenção e proteção à infância.
Infelizmente, este não é um caso isolado. O país ainda guarda na memória casos como os de Henry Borel, Isabella Nardoni, Bernardo Boldrini, João Hélio e tantas outras crianças que tiveram seus sonhos interrompidos pela violência. Em comum, essas histórias revelam sinais de alerta que, em muitos momentos, não foram percebidos ou não receberam a resposta necessária para impedir o pior.
A Constituição Federal, em seu artigo 227, estabelece que é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária, colocando-os a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.
Nos últimos anos, o ordenamento jurídico brasileiro também foi fortalecido pela Lei Henry Borel, criada para ampliar os mecanismos de prevenção e enfrentamento da violência doméstica e familiar contra crianças e adolescentes.
É imprescindível que a sociedade compreenda que proteger uma criança não é responsabilidade exclusiva da família ou do Estado, mas um dever compartilhado por todos. Professores, médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, vizinhos, familiares e qualquer cidadão que identifique sinais de violência têm o dever moral e legal de comunicar os fatos às autoridades competentes. O silêncio e a omissão podem custar vidas e permitir que o sofrimento continue até um desfecho irreparável.
Também é fundamental fortalecer as políticas públicas voltadas à infância, investir na capacitação dos profissionais da rede de proteção, ampliar a estrutura dos Conselhos Tutelares e promover campanhas permanentes de conscientização. A prevenção continua sendo o caminho mais eficaz para combater a violência infantil. Quanto mais cedo uma situação de risco é identificada, maiores são as chances de salvar uma vida e preservar a dignidade de uma criança.
Não podemos permitir que tragédias como essas sejam lembradas apenas pela comoção que provocam. Elas precisam servir de alerta para que toda a sociedade abandone a indiferença e assuma o compromisso de proteger aqueles que não têm condições de se defender sozinhos. Denunciar não é interferir na vida de outra família; é cumprir um dever de cidadania e de humanidade.
Uma sociedade que falha na proteção de suas crianças compromete o seu próprio futuro. Cada criança salva representa esperança, justiça e a possibilidade de construir um país mais humano. Que a dor das famílias que perderam seus filhos jamais seja esquecida e que sua memória inspire ações concretas para que nenhuma outra criança tenha sua infância interrompida pela violência. Proteger uma criança é proteger a vida, a dignidade e o futuro de toda a sociedade.





