A violência contra a mulher raramente começa com um golpe. Antes da agressão física, existe um roteiro silencioso, muitas vezes ignorado, que transforma relações afetivas em espaços de medo. Esse roteiro tem nome: controle.
O homem que se torna algoz não surge, em regra, como alguém explicitamente violento. Pelo contrário, costuma apresentar-se como cuidadoso, protetor, preocupado. O ciúme é romantizado, a vigilância é confundida com zelo e a imposição de limites passa a ser vista como prova de amor. É nesse terreno que a violência cria raízes.
O padrão se repete: primeiro, o controle das roupas, das amizades, das redes sociais. Depois, o isolamento da vítima, a desqualificação emocional, as humilhações sutis. Quando a mulher tenta retomar sua autonomia, a reação vem em forma de ameaça, intimidação ou agressão. A violência, então, deixa de ser exceção e passa a ser método.
Não se trata de perda momentânea de controle ou de impulso incontrolável. A violência é escolha. É instrumento de poder utilizado por quem não admite a autonomia do outro. O algoz age para dominar, silenciar e impor medo, transferindo à vítima a culpa pelo próprio comportamento agressivo.
Outro traço recorrente é a dupla face social. Muitos agressores mantêm uma imagem pública respeitável: são bons profissionais, pais presentes, cidadãos exemplares. Essa contradição dificulta denúncias, desacredita vítimas e fortalece o silêncio.
Do ponto de vista jurídico, o controle exercido em relações afetivas não pode ser tratado como conflito comum. A Lei nº 11.340/2006 reconhece como violência doméstica não apenas a agressão física, mas também a violência psicológica, moral e patrimonial. O controle excessivo, o isolamento e a intimidação configuram violência psicológica e violação aos direitos da personalidade.
A concessão de medidas protetivas não depende da agressão física consumada. O risco é avaliado a partir do medo instaurado, da ameaça e da dinâmica de dominação. Tratar o controle como violência é cumprir a lei e proteger vidas.
Quem ama não controla. Quem controla, viola direitos.





