Com o advento da inteligência artificial, muitos setores da sociedade têm passado por transformações significativas nas relações de trabalho e na produção de serviços e conhecimento. O mercado de trabalho, em particular, passa por uma profunda mudança não apenas na reestruturação das profissões existentes, mas também no modus operandi na execução de tarefas de rotina em sua relação com as organizações. Isso, o que se chama de automação do mercado de trabalho, tem sido visto por muitos como desafiador por impor uma transição acelerada e assimétrica: enquanto a produção cresce em volume e eficiência, o número de empregos é reduzido. Diante desse cenário de ganhos e perdas, onde o humano, que desde tempos áureos, se define por sua inteligência e capacidade de trabalho, se insere?
Nas empresas, as principais mudanças ocorrem no cumprimento de atividades rotineiras e repetitivas, como preparação de relatórios e análises preliminares, que antes eram assumidas por jovens profissionais em formação. Essas atividades estão sendo progressivamente automatizadas, delegando-lhes funções mais complexas. Isso também se reflete no setor agrícola, onde a mão de obra braçal diminui, dando lugar à necessidade de contratar trabalhadores com ensino superior. Já na administração pública, a mudança ocorre de forma lenta e gradual devido à estabilidade dos servidores e à falta de reposição dos aposentados. A revolução da IA também faz surgir novas profissões, como cargos relacionados à segurança digital e ao seu desenvolvimento, e outras ligadas à governança eletrônica, que priorizam o uso ético, eficiente e seguro da tecnologia e de seu conteúdo informativo (ver o portal gov.br na Lei nº 14.129/2021).
Se, por um lado, o advento da IA traz mudanças significativas no setor do trabalho, com a necessidade de adaptação e requalificação da mão de obra, por outro, abre novos horizontes, com a oportunidade de desenvolver capacidades diferenciadas, com maior ênfase no pensamento crítico e criativo, nas habilidades de liderança e na capacidade de julgamento e de decisão com responsabilidade ética. Tais habilidades são parte indissociável da esfera humana. Ainda assim, os benefícios da IA podem suscitar preocupações nos setores econômicos e sociais. A nova realidade digital também exige o aprendizado de novas competências e a formação continuada. Com o progresso contínuo da inteligência artificial, a produção e os ganhos poderão vir acompanhados de desemprego e concentração de renda. E, por fim, há a necessidade de estabelecer um limite às decisões humanas tomadas por sistemas automatizados, protegendo a autonomia e os direitos dos cidadãos.
Em vista disso, é preciso manter sempre um equilíbrio entre o que podemos ganhar com o uso da IA e o que está em risco. Ainda que tenhamos a perspetiva de ganhos tecnológicos e produtivos sem precedentes na história da humanidade, não podemos perder de vista a perspetiva ética e política decorrente dos avanços da ciência e da tecnologia. Não é apenas uma questão de preservar empregos, mas, sobretudo, de reconfigurar o valor do trabalho humano, a autonomia individual e o direito e a dignidade dos cidadãos, sem perder a direção.





