Em um sentido muito amplo, a concepção clássica de liberdade de pensamento está relacionada à capacidade humana de examinar criticamente a realidade na busca de juízos próprios independentemente das tradições, opiniões ou autoridades. Atualmente, tal ideia está vinculada à liberdade de expressão e à autonomia. Entretanto, é na sua dimensão política que essas ideias se relacionam mais intimamente, revelando a verdadeira extensão da liberdade e da autonomia desfrutadas pelo cidadão. É muito comum que o indivíduo possa pensar livremente, mas não consiga expressar suas ideias devido a entraves políticos e sociais. Como definir e garantir, hoje, a liberdade de pensamento com base no avanço científico e tecnológico crescente de nossa sociedade?
A neurotecnologia traz hoje muitos benefícios, mas também muitos desafios para o exercício da liberdade individual. Basta dizer que o secretário-geral das Nações Unidas (ONU), António Guterres, chamou a atenção (8/10/2026) para o fato de que, com o avanço cada vez mais rápido da neurotecnologia, os direitos humanos podem sofrer violações no futuro, com a possibilidade de governos e outras instituições acessarem e manipularem dados cerebrais em benefício próprio. Experimentos com essa tecnologia têm sido realizados em Bath, na Inglaterra, onde ondas cerebrais são lidas e traduzidas em comandos para um avatar virtual: https://www.bath.ac.uk/events/impact-in-action-how-bath-research-is-driving-positive-digital-transformation/. Embora, o interesse e o objetivo das pesquisas tenham por fim tratar de pacientes que tenham sofrido lesões sérias no cérebro ou na medula espinhal, tal tecnologia pode migrar para a área investigativa e se transformar em instrumento do Estado. Além disso, há a preocupação de que a indústria, que já utiliza tecnologia em dispositivos para monitorar estresse, sono e batimentos cardíacos, venha a repassar tais informações a terceiros sem o consentimento adequado.
Diante desse cenário, a ONU mobiliza-se para alertar os países sobre a proteção das informações mentais de seus cidadãos, classificando-as como “dados pessoais altamente sensíveis” e, assim, evitar o uso abusivo dessa tecnologia e preservar a autonomia dos indivíduos. Há, portanto, uma nova dimensão, até então pouco considerada, de liberdade de pensamento na era da inteligência artificial: o risco de manipulação intelectual e de formação de opiniões e até de concepções da realidade. Até que ponto continuaremos pensando livremente? Eis a questão.





