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Mês do meio ambiente: como abordar o tema nas escolas?Educadores apontam caminhos para trabalhar sustentabilidade e mudanças climáticas de forma prática e adequada a cada faixa etária

Foto: Assessoria da International Schools Partnership - ISP
Foto: Assessoria da International Schools Partnership - ISP

O ano de 2025 foi o terceiro mais quente já registrado na Terra, com a temperatura média global em 14,97 °C, valor 1,47 °C acima do nível pré-industrial (1850–1900), segundo o observatório climático da União Europeia, Copernicus Climate Change Service. O relatório Global Tipping Points 2025 aponta que recifes de corais ultrapassaram um ponto de não retorno, à medida que oceanos esquentam e temperaturas mais elevadas não permitem sua sobrevivência. O maior iceberg do mundo, que media 4 mil km² e se desprendeu da Antártida em 1986, está prestes a entrar em colapso, medindo agora apenas cerca de 1,1 mil km². Esses, entre outros dados alarmantes, mostram a urgência de enfrentar as mudanças climáticas, que ameaçam as condições para a sobrevivência da espécie humana.

A Educação Ambiental é relativamente nova, com seu conceito tendo surgido em 1965, e a sociedade despertando para o tema apenas nas décadas de 1970 e 1980. A partir de 2025, as instituições de ensino brasileiras estão obrigadas pela Lei nº 14.926, de 17 de abril de 2024, a incluir em seus currículos os temas das mudanças do clima e da proteção da biodiversidade, garantindo que os projetos pedagógicos, na educação básica e no ensino superior, contem com atividades relacionadas aos riscos e emergências socioambientais e a outros aspectos relacionados à questão ambiental e climática.

Como abordar a educação ambiental em sala de aula?

Nas escolas, especialistas defendem que o tema seja tratado de maneira adequada à faixa etária, priorizando experiências concretas, participação ativa e senso de responsabilidade coletiva. A educação ambiental pode ser trabalhada de forma transversal e contínua, conectando conteúdos pedagógicos à realidade dos estudantes e incentivando atitudes práticas no cotidiano.

Educação Infantil

Segundo Beatriz Martins, coordenadora pedagógica do Brazilian International School – BIS, de São Paulo (SP), a consciência ambiental na Educação Infantil deve nascer da vivência, do encantamento e das experiências significativas que a criança estabelece com o mundo ao seu redor. “Mais do que ensinar conceitos prontos, precisamos criar oportunidades para que as crianças percebam, na prática, que tudo o que fazem gera impacto na natureza, no ambiente e nas pessoas”, explica a educadora.
 

Beatriz destaca que projetos que unem literatura, investigação, arte e experiências concretas ajudam a desenvolver valores como o cuidado, a empatia e a responsabilidade socioambiental desde os primeiros anos. “Quando a criança sente que pertence ao mundo e entende que também é responsável por ele, a aprendizagem deixa de ser apenas conteúdo e passa a se transformar em valor e ação”, afirma Beatriz.
 

Um exemplo prático foi uma feira do livro realizada pelo colégio, com o tema “Quem Somos e o Mundo que Compartilhamos”, na qual os alunos refletiram sobre o pertencimento, a sustentabilidade e o impacto das pequenas ações no mundo. Para a Feira de Livros, as crianças produziram seus próprios livros, desenvolvidos nas aulas de pré-alfabetização em Língua Portuguesa e no currículo internacional.
 

Fundamental I

No Ensino Fundamental I, os alunos já conseguem compreender relações entre consumo, desperdício e sustentabilidade. Projetos interdisciplinares, experiências práticas e ações coletivas, como campanhas de reciclagem, economia de água e energia, reaproveitamento de materiais e estudos sobre fauna e flora, contribuem para ampliar a conscientização ambiental.

“É importante transformar a sustentabilidade em algo próximo da realidade dos estudantes. Pequenas ações dentro da escola ajudam a mostrar que todos podem participar das mudanças e desenvolver hábitos mais conscientes no dia a dia”, afirma Eloísa Monteiro, coordenadora pedagógica da Escola Bilíngue Aubrick, de São Paulo (SP).

A escola realiza ações como compostagem de resíduos orgânicos, com posterior doação de adubo para famílias; instala sinalizadores nas torneiras para a economia de água, além de participar da campanha mundial “15 Minutes for the Planet”, que incentiva a desligar equipamentos elétricos para economizar energia.

Fundamental II

No Ensino Fundamental II, a sustentabilidade pode ser trabalhada de forma integrada às diferentes disciplinas e ao cotidiano escolar, permitindo que os estudantes compreendam sua relação com questões ambientais, sociais e econômicas de maneira mais crítica e consciente. Mais do que ações pontuais, a proposta é tornar a sustentabilidade um hábito presente na rotina dos alunos, incorporado naturalmente às práticas pedagógicas e às vivências diárias dentro da escola. O trabalho deve envolver professores, estudantes e famílias, fortalecendo a ideia de responsabilidade coletiva e mostrando que pequenas atitudes constantes geram impactos reais.

“Quando a sustentabilidade deixa de ser um tema isolado e passa a fazer parte do contexto escolar diariamente, os alunos começam a enxergá-la como algo natural, assim como qualquer outro hábito da rotina. O objetivo é que eles desenvolvam essa consciência de forma contínua, entendendo que cuidar do ambiente e das pessoas também faz parte da formação cidadã”, afirma Francine Loli, professora e coordenadora do colégio Progresso Bilíngue de Itu (SP).

Ensino Médio

No Ensino Médio, a abordagem pode integrar temas ambientais a questões sociais, econômicas e políticas, promovendo reflexões mais complexas sobre sustentabilidade, justiça climática, consumo consciente e responsabilidade coletiva. Simulações, desenvolvimento de projetos, ações de protagonismo juvenil e participação em debates aproximam os jovens de discussões globais e incentivam o engajamento cidadão.

“O estudante do ensino médio precisa ser provocado a pensar seu papel na sociedade e compreender que a crise climática exige decisões coletivas e individuais. A escola tem um papel fundamental na formação de jovens mais conscientes, participativos e preparados para lidar com os desafios do futuro”, destaca a PhD em Teatro e Educação Elaine Lavezzo, professora da Escola Internacional de Alphaville – EIA, de Barueri/SP.

Todas essas questões ambientais são colocadas em cena no espetáculo encenado pelos alunos “Na Terra do Nunca”, no qual os estudantes atuam como agentes de comunicação ambiental, com dramaturgia e direção da professora Elaine. Além disso, o projeto “Acting for Climate Change” promove na EIA a discussão do tema das mudanças climáticas de uma forma inovadora, ou seja, por meio de apresentações teatrais para públicos de diferentes faixas etárias. O conquistou prêmios ainda internacionais como o “ISP Changemakers” e o “Creativity in Education for Climate Change Awards”, oferecido pelo Global Institute for Creative Thinking e Unesco.

Escola influencia positivamente no engajamento ambiental

A Pesquisa Global de Ansiedade Climática K–12, da International Schools Partnership (ISP), ouviu mais de 5 mil estudantes de 10 a 18 anos em 25 países, incluindo o Brasil, e apontou que a maioria dos alunos do ensino básico reconhece a urgência (83,8%) e se preocupa com a crise climática (75,1%); mas poucos adotam práticas sustentáveis de forma consistente (21,4%), e menos da metade (47,7%) acredita que impacto de suas próprias atitudes pode fazer a diferença para frear as mudanças no clima.

O levantamento da ISP também evidencia o papel decisivo das escolas na transformação da consciência ambiental dos jovens. Os resultados apontam que 42% dos estudantes acreditam que suas instituições de ensino fazem o suficiente para enfrentar as mudanças climáticas; índice que sobe para 61% entre os alunos que participam ativamente de projetos ambientais e educativos sobre o assunto, e cai para 38% entre os que não participam de atividades de letramento sobre o tema – uma diferença que evidencia o impacto direto da vivência prática na percepção dos estudantes.

Os dados indicam que o contato com iniciativas concretas fortalece não apenas a visão sobre o papel da escola, mas também a confiança dos jovens em sua própria capacidade de gerar impacto. A participação em atividades estruturadas ajuda a transformar preocupação em ação, promovendo protagonismo estudantil. “Estudantes engajados tendem a apresentar maior senso de responsabilidade coletiva, e mais otimismo e confiança em relação ao futuro”, opina Santuza Bicalho, managing director da ISP no Brasil. “O resultado reforça que a conscientização, por si só, não é suficiente para gerar mudanças, é a experiência prática que impulsiona comportamentos mais sustentáveis e duradouros”.

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