Ao longo de 25 anos de serenatas, já entrei em muito lugar diferente. Mas existe um condomínio de militares, na região do Ibirapuera, que me fez viver uma situação inusitada. Não uma, nem duas… três vezes.
Nas três ocasiões, o protocolo era o mesmo. Eu chegava à portaria de cartola, casaca e violão, conferiam meus documentos, falavam no rádio e, de repente, apareciam dois militares armados.
— Pode nos acompanhar.
Na primeira vez, caminhei em silêncio. Pensei: “Não posso desafinar nem falar bobagem porque a escopeta esta virada pra mim”
Na segunda, já fui mais tranquilo.
Na terceira, quase perguntei se minha carteirinha de visitante constante estava pronta.
Era uma cena engraçadíssima. Enquanto muita gente sonha em ser escoltada por autoridades importantes, eu estava sendo escoltado porque carregava… um violão.
Quem olhasse de longe imaginaria que eu transportava um segredo de Estado, mas a única operação em andamento era uma serenata surpresa.
As duas primeiras homenagens foram para militares aposentados de enorme prestígio, mas a terceira… ah, essa foi especial.
A filha do homenageado me chamou de lado e pediu que mencionasse alguns dados sobre o homenageado, começou a contar histórias deliciosas sobre o pai, um general aposentado.
Disse que, apesar da postura impecável, ele era campeão em distrações. Um dia saiu de casa usando uma meia azul e outra vermelha. Descobriu só quando já estava longe.
Também trocava o nome das pessoas com uma convicção impressionante. Chamava Antônio de Roberto, Roberto de Paulo… e seguia a conversa como se nada tivesse acontecido.
Mas a melhor história envolvia seu velho jipe. O banco do motorista vivia solto.
Os amigos já sabiam que, mais cedo ou mais tarde, aquilo renderia um espetáculo.
E rendeu.
Bastou acelerar um pouco. O banco disparou para trás e o general foi junto, ficando literalmente de pernas pro ar mostrando suas meias coloridas e as mãos tentando entender onde tinha ido parar o volante.
Os amigos, que esperavam aquele momento há anos, quase passaram mal… de tanto rir.
Enquanto eu decorava essa preciosidade para contar durante a homenagem, um dos amigos do general me puxou discretamente.
— Fredi… essa do jipe, pela amor de Deus não conte!!!. Senão ele nunca mais olha na nossa cara. Naquele ambiente eu nem questionei o que iria fazer.
Quando a serenata terminou, fui novamente escoltado até a saída e percebi: Ainda bem que não falei nada sobre o jipe. Não chegaria vivo pra próxima serenata. Olhei para aqueles homens de postura impecável, treinados para defender um país, e percebi algo que nunca havia pensado.
Durante anos, a vida ensinou aqueles militares a esconder o medo, controlar as emoções e manter a firmeza diante das maiores adversidades.
Mas bastou um violão, meia dúzia de canções e o carinho da família para derrubar, por alguns minutos, todas as patentes.
Ali já não existiam generais, coronéis ou oficiais.
Existiam apenas filhos orgulhosos, esposas apaixonadas, netos emocionados e amigos lembrando, entre risos, que até os homens mais disciplinados já saíram de casa com meias diferentes, trocaram nomes ou passaram vergonha.
Foi quando entendi que a maior patente que alguém pode conquistar não se pendura no peito.
Ela mora na memória daqueles que contam nossas histórias quando já não estamos olhando.
Porque, no fim da vida, ninguém será lembrado pelas ordens que deu, mas pelo amor que despertou, pelas risadas que deixou e pela saudade que terá o privilégio de provocar.





