O presidente terá que negociar com o congresso de direta, lidar com a crise no STF cumprir com suas promessas eleitorais. E lidar com a economia
Ao longo do quarto mandato, o presidente também poderá indicar quatro ministros para o tribunal, o que terá impacto sobre a composição do Supremo nos próximos anos.
Lula também terá de ampliar o diálogo com o Centrão, que não se sentiu plenamente contemplado na composição política do atual governo, e buscar apoio entre parlamentares que, mesmo pertencendo a partidos que apoiaram Flávio Bolsonaro (PL), optaram por Lula ou não seguiram a orientação das próprias legendas.
A dívida pública em alta, os juros elevados e a inflação resistente estão entre os desafios apontados por economistas para o quarto mandato.
O governo também precisará encontrar espaço no Orçamento para financiar programas sociais e novas medidas, em um cenário de desaceleração da atividade econômica e de pressão por um plano fiscal capaz de conter o avanço do endividamento
O quarto mandato de Lula começará com o desafio de negociar com um Congresso mais conservador e com o PL, partido de Flávio Bolsonaro, fortalecido nas duas Casas.
O PL terá 121 deputados e 29 senadores a partir de 2027. Ao mesmo tempo, o PT e os partidos aliados terão menos espaço no Congresso, o que obrigará Lula a buscar votos fora de sua base para aprovar propostas.
Esse apoio será especialmente importante entre os partidos de centro. PP, União Brasil, Republicanos, Podemos e Novo apoiaram Flávio Bolsonaro no segundo turno. Juntas, as cinco siglas somam 245 deputados e 51 senadores.
Isso não significa, porém, que esses parlamentares formarão automaticamente um bloco de oposição. A composição do Congresso aumenta a importância da negociação do governo com essas legendas para construir maiorias em votações.
O tamanho do desafio varia de acordo com a proposta. Na Câmara, por exemplo, um projeto de lei complementar precisa de 257 votos para ser aprovado.
Uma proposta de emenda à Constituição (PEC), que modifica a Constituição, exige ao menos 308 votos favoráveis. No Senado, são necessários, respectivamente, 41 e 49 votos.
No discurso após a vitória, Lula reconheceu que terá de negociar com o Congresso eleito, mas minimizou as dificuldades.
A relação com o Centrão, portanto, deverá ser um dos pontos centrais da articulação política do próximo governo.
Lula também terá de reconstruir pontes com partidos e lideranças que ficaram afastados do Planalto durante o atual mandato ou que não integraram formalmente sua base.
Outro fator importante será a definição do comando do próprio Congresso. As presidências da Câmara e do Senado serão disputadas em fevereiro de 2027, no início da nova legislatura.
Motta afirmou que o presidente terá apoio para pautas voltadas a melhorar a vida da população. Alcolumbre disse que o Congresso terá uma atuação voltada à pacificação.
Motta e Alcolumbre articulam ainda a permanência à frente de suas respectivas Casas. O resultado dessas disputas será importante para o Planalto porque os presidentes da Câmara e do Senado têm poder para definir quais propostas entram na pauta de votação.
Ao mesmo tempo, o PL tenta ampliar seu espaço no comando do Congresso. Na Câmara, Motta buscou apoio de partidos do centro e da esquerda diante do crescimento da bancada do PL.
No Senado, Alcolumbre também articula sua reeleição, enquanto o PL indicou que pretende disputar o comando da Casa.
A composição dessas forças será uma das primeiras medidas da capacidade de Lula de construir uma base política para o novo mandato e avançar com sua agenda no Congresso.
Crise no STF
Outro desafio de Lula será lidar com a crise interna no Supremo Tribunal Federal (STF), que vive um período de divergências entre ministros.
No próximo mandato, o presidente também deve quatro integrantes da Corte, o que pode influenciar a composição do tribunal e seu funcionamento nos próximos anos.
A previsão das quatro indicações considera a vaga aberta com a aposentadoria de Luís Roberto Barroso e as aposentadorias compulsórias previstas de Luiz Fux, em 2028, Cármen Lúcia, em 2029, e Gilmar Mendes, em 2030.
O racha no STF tem sido exposto por divergências entre ministros sobre a condução de investigações relacionadas ao Banco Master e sobre a divulgação de informações dos inquéritos.
A crise ganhou força no início de setembro, após a divulgação de um relatório da Polícia Federal (PF) sobre mensagens trocadas entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, e o ministro Alexandre de Moraes.
Os desdobramentos das investigações levaram a decisões conflitantes de integrantes do Supremo e exigiram a intervenção do presidente da Corte, Edson Fachin.
Em meio à crise, Fachin defendeu uma resposta institucional aos fatos e afirmou que nenhuma autoridade está acima da Constituição.
Promessas e economia
Na economia, um dos principais desafios do quarto mandato de Lula será conciliar as promessas feitas durante a campanha com a necessidade de equilibrar as contas públicas e manter o crescimento.
O novo governo começará em um cenário de dívida pública elevada, juros altos e pouco espaço disponível no Orçamento.
A dívida bruta chegou a R$ 11,1 trilhões em agosto de 2026, o equivalente a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB).
Ao mesmo tempo, 90% dos R$ 2,8 trilhões previstos para as despesas primárias de 2027 já estão comprometidos com aposentadorias, salários, benefícios sociais e outros gastos obrigatórios.
Na prática, isso significa que sobra pouco espaço para despesas sobre as quais o governo tem maior liberdade de decisão, como investimentos e a criação ou ampliação de programas públicos.
Durante a campanha, Lula prometeu ampliar o Bolsa Família, oferecer transporte público gratuito aos fins de semana, manter a política de valorização do salário mínimo e aumentar os investimentos públicos.
As medidas podem sustentar a renda das famílias e estimular a atividade econômica. Mas, sem novas fontes de receita ou cortes em outras áreas, também podem aumentar a pressão sobre o Orçamento e a dívida pública.
A condução das contas públicas também influencia os juros. Quando investidores avaliam que a dívida pode continuar crescendo sem uma perspectiva clara de estabilização, podem exigir uma remuneração maior para financiar o governo.
Juros elevados encarecem empréstimos e financiamentos. Com isso, as famílias tendem a reduzir o consumo ou adiar compras de maior valor, enquanto empresas podem postergar investimentos. Esse movimento limita o crescimento da economia e a geração de renda.
A preocupação com a condução das contas públicas também se refletiu no mercado financeiro após a eleição.
Segundo Juliano de Lara Fernandes, da Armada Asset, o resultado das urnas e a perspectiva de manutenção dos juros elevados provocaram uma reavaliação dos ativos brasileiros.
Na avaliação do gestor, enquanto o novo governo não apresentar uma sinalização sobre a condução da política fiscal, a Bolsa poderá continuar refletindo a perspectiva de juros elevados, aumento dos custos das empresas e redução dos lucros.
A economista Tatiana Goes também afirma que o comportamento dos ativos nas próximas semanas dependerá das sinalizações do governo, das negociações com o Congresso, do cenário externo e, sobretudo, da credibilidade das medidas fiscais.
O desafio fiscal não apaga os resultados positivos registrados no terceiro mandato de Lula. A economia cresceu por três anos consecutivos, o desemprego atingiu mínimas históricas e a renda média do trabalho avançou.
A melhora, porém, não chegou da mesma maneira a todos os brasileiros. O custo de vida, o endividamento das famílias e os juros elevados continuaram pressionando o orçamento doméstico. Em julho de 2026, as famílias destinavam 28,7% da renda mensal ao pagamento de dívidas.





