Sérgio Cabral pediu intervenção de Bacellar para adiar julgamento de R$ 64 milhões em um processo de improbidade administrativa relacionado a investigações da Operação Lava Jato no Rio de Janeiro. As informações foram reveladas a partir de apuração que identificou mensagens trocadas entre o ex-governador e o então presidente da Assembleia Legislativa do estado.
A ação envolve acusações de irregularidades em pagamentos de propina e resultou na condenação de Cabral e do empresário Eike Batista à devolução de R$ 64,2 milhões cada aos cofres públicos. O processo já foi analisado em segunda instância, que manteve a decisão inicial.
Segundo a Polícia Federal, Cabral procurou Bacellar no momento em que o recurso do processo estava prestes a ser julgado pela 6ª Câmara de Direito Público. A intenção seria retirar o caso da pauta.
“Amigo, na segunda-feira você pode dar 10 minutos de atenção para a Dra. Patrícia Proetti, minha advogada, para te dar um briefing da minha situação de improbidade na 6ª Câmara de Direito Público? Pode ser aqui como pode ser na sua casa, como pode ser no escritório dela, que é na São José. Eu estarei junto. Muito importante para mim.”, escreveu Cabral.
Dias depois, o ex-governador voltou a insistir no pedido.
“Não esquece do meu julgamento na 6ª Câmara. Desculpe te perturbar com isso. Mas será terça. Só pedir para retirar de pauta”, afirmou.
Bacellar respondeu: “Estou tentando desde ontem. Te falo.”
Na véspera do julgamento, a relatora do caso determinou a retirada do processo da pauta, alegando necessidade de análise mais aprofundada.
De acordo com relatório da Polícia Federal, a decisão gerou reação imediata de Cabral, que demonstrou satisfação com o adiamento.
“Irmão! Saiu de pauta o meu processo. Você é um querido. Te amo, amigo!!!”, escreveu o ex-governador.
Apesar da tentativa de adiamento, o processo seguiu seu curso meses depois. Em nova análise realizada pela 6ª Câmara de Direito Público, a condenação foi mantida, com a obrigação de devolução dos valores permanecendo válida.
A investigação tem origem na Operação Eficiência, desdobramento da Lava Jato no Rio de Janeiro, que apontou pagamentos de propina ao então governador por meio de contratos simulados no exterior e no Brasil.
Entre os valores identificados, estão transferências milionárias feitas por meio de empresas offshore e contratos considerados fictícios, além de pagamentos envolvendo o escritório de advocacia ligado à então esposa de Cabral, Adriana Ancelmo.
Além do ex-governador e de Eike Batista, outros envolvidos também foram condenados por improbidade administrativa, incluindo Adriana, que recebeu penalidades proporcionais ao seu envolvimento.
As defesas dos réus afirmam que seguem recorrendo das decisões e que o caso ainda não teve trânsito em julgado.
A desembargadora responsável pelo caso informou que não recebeu pedidos para retirada do processo da pauta, enquanto Bacellar não se manifestou sobre o conteúdo das mensagens.
Mesmo com o adiamento momentâneo, a manutenção da condenação reforça a continuidade das investigações e mantém o caso como um dos mais relevantes desdobramentos das apurações sobre corrupção no estado — e que ainda pode gerar novos capítulos nos próximos meses.




