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Vidigal: mudas da Mata Atlântica são plantadas em área antes usada para descarte de lixo

Uma área que estava sendo usada como ponto de despejo de lixo no Morro do Vidigal, em São Conrado, Zona Sul da capital fluminense, está passado por um reflorestamento. Mudas de espécies da Mata Atlântica estão sendo plantadas no local pela Secretaria de Estado do Ambiente e o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), com o apoio do Projeto De Olho no Lixo.

A iniciativa prevê o reflorestamento da região com mais de 300 mudas a serem plantadas na área degradada. O replantio, dizem os biólogos, irá garantir a preservação da Mata Atlântica e também contribuir para o fim desse descarte irregular, a fim de contribuir com o meio ambiente.

A Mata Atlântica abrange cerca de 15% do território nacional, em 17 estados. Dela dependem serviços essenciais como abastecimento de água, regulação do clima, agricultura, pesca, energia elétrica e turismo. Na época do descobrimento do Brasil, a Mata Atlântica era contínua como a Floresta Amazônica e considerada a segunda maior floresta tropical do Brasil, com uma área de cerca de 1.315.460 km². Atualmente, no entanto, restam apenas 12,4% da cobertura original, e a Mata Atlântica é considerada a quinta área mais ameaçada do planeta.

Mudas são plantadas em áreas no Vidigal. (Fotos: Divulgação)

“Estamos muito felizes em poder realizar essa ação e contar com a parceria da Viva Rio e do Projeto De Olho no Lixo. Ações como essa são fundamentais para estimular a consciência ambiental e espalhar boas práticas pelo nosso estado”, afirmou o secretário do Ambiente e Sustentabilidade do Estado, Thiago Pampolha.

A equipe do Projeto De Olho no Lixo – fruto de cooperação técnica entre o Viva Rio, a Secretaria do Ambiente e o Inea – realizou toda limpeza do local que recebeu as mudas. A Associação de Supermercados do Estado do Rio de Janeiro (Asserj) também deu apoio à iniciativa.

A ação, segundo o governo do estado, foi realizada obedecendo o protocolos de segurança para preservar a saúde dos participantes, como o uso obrigatório de máscara, assepsia das mãos com álcool em gel e o distanciamento entre os participantes.

“Essa é uma área de fundamental importância que fica no coração do Rio de Janeiro. Promover essa ação é garantir o uso público, que se torna possível a partir da limpeza e conservação do local e da Mata Atlântica”, disse Márcia Rolemberg, coordenadora da Área Socioambiental do Viva Rio e geral do projeto De Olho no Lixo.

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Crianças arrecadam R$ 23 mil com vaquinha para restaurar área de Mata Atlântica

Por Alan Alves 

Duas crianças de 8 e 11 anos conseguiram arrecadar R$ 23 mil com uma vaquinha para plantar mudas de árvores em uma área de Mata Atlântica. O Marcello (8) e a Olivia (11) realizaram o financiamento coletivo com a intenção de restaurar uma área equivalente a um campo de futebol em uma antiga fazenda de café em Itu.

Eles conseguiram o suficiente para o plantio de 1.474 mudas e ainda contaram com a ajuda da a Fundação SOS Mata Atlântica, que contribuiu com outras 193 mudas parar atingir a meta de área plantada.

A iniciativa dos dois amigos de escola começou após uma visita à base de restauração florestal da ONG em Itu, em janeiro de 2019. No local, são produzidas mudas de árvores nativas da Mata Atlântica – aproximadamente 450 mil por ano – e usadas nos projetos de restauração florestal.

Vaquinha organizada pelas crianças arrecadou R$ 23 mil. (Foto: Marcelo Ferreli/SOS Mata Atlântica)

Após conhecerem um pouco mais sobre as características da Mata Atlântica e dos riscos da degradação do bioma para o meio ambiente e para a
sociedade, os dois tiveram a ideia de plantar um campo de futebol de árvores.

A leitura de livros na escola também fez criar nos dois o espírito de cooperação com o meio ambiente.

“Tudo começou na minha escola quando eu estava no segundo ano. Li um livro chamado SOS Planet Earth e li algo que me inspirou a levantar
dinheiro para ajudar as florestas tropicais da América do Sul”, disse Marcello.

“No dia da visita à base em Itu, o Marcello perguntou se ele plantasse uma muda ajudaria. Eles disseram que sim e aí tivemos essa ideia”, conta Olivia.

A vaquinha foi lançada em abril de 2019 (Dia da Terra) na plataforma GoFundMe. Nessa época, o Marcello morava no Canadá e a Olívia no Brasil, mas a distância não atrapalhou os planos dos amigos, que divulgaram a
campanha nas redes sociais, colégios e entre colegas e familiares.

Em setembro de 2020, Olivia entregou o cheque simbólico com o valor arrecadado para a Fundação SOS Mata Atlântica e fez o plantio da primeira muda do “Campo dos sonhos” dela e de Marcello, que não pode estar presente, mas que presenciou tudo por videoconferência.

Árvores serão plantadas em área do tamanho de um campo de futebol. (Foto: Marcelo Ferreli/SOS Mata Atlântica)

A propriedade onde as mudas serão plantadas possui mais de 500 hectares, onde acontecem ações de educação ambiental, mobilização, cursos e capacitações. Mais da metade do território da propriedade foi recuperado com o plantio de árvores nativas do bioma, e algumas já alcançam 10 metros de altura.

Na área de restauração em Itu, uma pesquisa identificou 20 espécies nativas de mamíferos que passaram a ocupar o território, sendo que seis encontram-se em algum grau de ameaça de extinção, o que demonstra a importância da área para a conservação da diversidade local e regional.

“Quando conhecemos algo, no caso a Mata Atlântica, e entendemos a sua importância, é um grande passo para que ações como essa aconteçam. Ficamos muito felizes pelo engajamento das crianças em prol da Mata Atlântica, que ainda precisa ser mais conhecida por boa parte da população brasileira”, afirma Kelly De Marchi, coordenadora de Educação Ambiental da Fundação SOS Mata Atlântica.

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Estudo aponta para falsa estabilidade da cobertura florestal nativa na Mata Atlântica

Perda de florestas mais antigas é ameaça à Mata Atlântica

Artigo de pesquisadores brasileiros na revista Science Advances faz alerta sobre a preocupante dinâmica de desmatamento de florestas nativas maduras e aponta desafios para programas de restauração

Artigo publicado por especialistas brasileiros na renomada revista Science Advances mostra que a aparente estabilidade da cobertura florestal nativa na Mata Atlântica desde 2000 esconde uma forte e preocupante dinâmica de perda de floresta natural madura, especialmente em algumas regiões do bioma, o que impacta a sobrevivência de espécies e o fornecimento de serviços ecossistêmicos, como a mitigação das mudanças climáticas.

O grupo – liderado por Marcos Reis Rosa, doutorando na área de Geografia na USP e coordenador técnico do MapBiomas – aponta que, desde 2005, o ganho de floresta natural é superior ao desmatamento. Porém, o desmatamento de floresta madura, mesmo em queda, ainda tem valores muito alarmantes.

“Foi demonstrada a recuperação de florestas jovens, que são essenciais para aumentar a cobertura florestal e criar corredores entre fragmentos isolados, principalmente em Áreas de Preservação Permanente ao longo dos rios. Mas o estudo também comprova o desmatamento contínuo das florestas nativas mais antigas, com maior biodiversidade e carbono estocado, principalmente para ampliação da agricultura e plantio de florestas exóticas. Apesar dessa dinâmica de perda e ganho de florestas nativas ter mantido a quantidade de floresta praticamente estável nos últimos 20 anos, esse rejuvenescimento das florestas pode ser extremamente danoso para a conservação do bioma”, ressalta Rosa.

Ele afirma ainda que, “na atual década da restauração de ecossistemas instituída pela ONU, é necessário ampliar as ações de restauração da floresta nativa, porém é imprescindível buscar o desmatamento zero e manter todos os instrumentos e iniciativas de proteção dos remanescentes florestais existentes”.

Para o ecólogo Jean Paul Metzger, do departamento de Ecologia da USP e que também colaborou com o artigo, “a estabilidade na cobertura de Mata Atlântica passa a falsa impressão que o desmatamento está controlado”. “Infelizmente, não está. A análise separada das taxas de desmatamento e de regeneração mostra que o desmatamento no bioma ainda é significativo e afeta matas maduras, que são as matas mais importantes para conservação da biodiversidade e para a regulação climática e hídrica”, reforça o pesquisador.

Florestas maduras são insubstituíveis para a conservação da biodiversidade tropical, conclui o estudo – já que muitas espécies de animais, plantas e microrganismos são incapazes de recolonizar florestas secundárias e dependem de habitats mais antigos, menos alterados, estruturalmente mais desenvolvidos e biodiversos para persistir.

O artigo indica ainda que a dinâmica de ganho e perda de floresta nativa tem uma forte relação regional. A perda de floresta nativa se concentra na região centro-sul do Paraná e Santa Catarina, especialmente nas Matas de Araucárias, e na divisa entre Minas Gerais e Bahia, principalmente na região das Matas Secas. Já o ganho de floresta nativa é observado no interior do Paraná e de São Paulo, no sul de Minas Gerais e do Espírito Santo, além da região Serrana do Rio de Janeiro e litoral de Pernambuco e Paraíba.

O estudo afirma que a suposta estabilidade na cobertura florestal nativa ocorre, pois florestas maduras que continuam sendo desmatadas estão sendo substituídas por florestas jovens, em recuperação. Foi notada praticamente a mesma quantidade de floresta recuperada e de florestas maduras desmatadas.

Para Marcia Hirota, diretora executiva da Fundação SOS Mata Atlântica, grande parte desse desmatamento poderia ter sido evitado pela aplicação da Lei da Mata Atlântica, aprovada em 2006. O bioma foi o primeiro no país a contar com uma lei específica, que funciona como uma camada especial de proteção que precisa ser respeitada para que ele continue vivo. “A lei é importante não só para a floresta, mas também para a qualidade de vida da população, já que 72% dos brasileiros vivem em áreas de Mata Atlântica e são beneficiados por ela, com serviços como a regulação do clima, abastecimento de água e turismo”, afirma ela.

Hirota reforça a importância de criar novas Unidades de Conservação, como parques e reservas públicos ou privados, para preservar as florestas maduras. E cabe ainda aos municípios elaborar o Plano Municipal da Mata Atlântica (PMMA), com diretrizes e um plano de ação voltado para projetos de recuperação, pesquisa científica e uso sustentável em remanescentes da floresta atlântica. De acordo com a lei, o PMMA deve ser aprovado pelo Conselho Municipal de Meio Ambiente antes de ser colocado em prática.

Retrocesso

De acordo com o artigo, 11% da cobertura florestal de Mata Atlântica atual são florestas jovens, com menos de 20 anos. Para os pesquisadores, o rejuvenescimento da cobertura florestal nativa representa um retrocesso crítico.

“Uma mensagem fundamental desse artigo é que a manutenção da estabilidade da cobertura florestal, ou até um ganho líquido de floresta, nos últimos anos, parece ser uma notícia boa que deve ser comemorada, mas ainda sim mascara grandes riscos. A recuperação da vegetação nativa deve se dar não apenas em quantidade, mas também em qualidade. Trocar floresta madura por florestas jovens é um risco para a biodiversidade e mitigação das mudanças climáticas. A recuperação florestal tem que acontecer, especialmente em biomas extremamente desmatados e fragmentados como a Mata Atlântica. Mas essa recuperação florestal tem que vir atrelada à manutenção das florestas maduras. Ou seja, nem sempre a transição florestal, ganho líquido de floresta, é um sinal de melhoria da qualidade ambiental”, afirma Renato Crouzeilles, diretor do Instituto Internacional para Sustentabilidade na Austrália, que também assina o artigo.

No Bonn Challenge, esforço global para restauração florestal, quase 200 milhões de hectares de compromissos de restauração florestal foram prometidos por mais de 60 programas nacionais e subnacionais, a maioria deles localizados em países tropicais em desenvolvimento. “A perda não computada da cobertura florestal nativa madura durante a implementação de programas de restauração nos trópicos globais pode ser ainda pior do que o que observamos na Mata Atlântica, visto que o Brasil é (ou pelo menos foi) globalmente reconhecido por suas políticas e ferramentas de sucesso para reduzir o desmatamento”, afirma Pedro Brancalion, do Departamento de Ciências Florestais da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da USP.

Sobre a Fundação SOS Mata Atlântica

A Fundação SOS Mata Atlântica é uma ONG ambiental brasileira criada em 1986 para inspirar a sociedade na defesa da floresta mais ameaçada do Brasil. Atua na promoção de políticas públicas para a conservação da Mata Atlântica por meio do monitoramento do bioma, produção de estudos, projetos demonstrativos, diálogo com setores públicos e privados, aprimoramento da legislação ambiental, comunicação e engajamento da sociedade em prol da restauração da floresta, valorização dos parques e reservas, água limpa e proteção do mar. Os projetos e campanhas da ONG dependem da ajuda de pessoas e empresas para continuar a existir. Saiba como você pode ajudar em www.sosma.org.br.