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Versos & Diversos: Alvorecer de Memórias 

Foto: Divulgação
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Naquela pequena cidade, o dia 2 de novembro, Finados, não amanhecia cinzento. Para o velho Sr. Adilson, o cemitério era um jardim onde o tempo apenas mudava de estado. Nesse dia, ele caminhava carregando baldes de cal, pincéis e maços de sorrisos-de-maria e crisântemos amarelos.

Sua tarefa era retocar os nomes apagados pelo vento. Enquanto passava o pincel pelas letras esculpidas na pedra e deixava uma flor, ele falava baixinho. “Aos que aqui habitam, o meu bom dia”, dizia, como quem saúda vizinhos na calçada.

Para Adilson, a morte não era o oposto da vida, mas a moldura que a tornava preciosa. Cada túmulo caiado de branco reluzia sob o sol da primavera, refletindo luz para a cidade. Os moradores olhavam e não viam ausência; viam memória viva. No fim da tarde, quando as primeiras velas eram acesas, o cemitério parecia um céu invertido. O velho sentava-se, acendia seu cachimbo e sorria. Ele sabia que, enquanto houvesse alguém para pintar aqueles nomes, ninguém ali morreria de verdade. A vida continuava no pulso de quem lembra.

A Dança do Tempo 

A terra acolhe a semente.

A argila guarda a raiz.

A morte é traço latente,

vinco invisível

onde o tempo a vida bendiz.

No sopro livre do cansaço,

o dia vira fumaça.

A alma desfaz o laço.

No espaço que sobra,

a saudade abraça.

Finados não é o fim,

nem pranto seco no chão.

É broto que nasce no jardim,

regado por gratidão.

Quem parte vira poeira,

nuvem, vento, lembrança.

A morte é apenas fronteira

onde a vida, no afeto,

se multiplica e avança.

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