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Versos & Diversos: Quando o silêncio fala mais que as palavras

Foto: Divulgação
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Vivemos na era do ruído. Notificações que pulam na tela, buzinas impacientes no trânsito, conversas que se sobrepõem em cafés lotados. Acostumamo-nos a preencher cada segundo vago com som, com palavras, com alguma distração que nos impeça de encarar o vazio. O silêncio, para muitos, tornou-se sinônimo de constrangimento, de tédio ou de algo que precisa ser quebrado.

Mas há uma sabedoria imensa nos espaços não preenchidos pela voz.

Lembro-me de uma tarde, sentada na varanda com meu avô. Ele, com seu olhar perdido no horizonte que só a idade parece descortinar; eu, com a ansiedade típica da juventude, sentindo a necessidade de puxar assunto. Falei do tempo, do trabalho, de uma notícia qualquer que li no jornal. Ele apenas balançava a cabeça, um sorriso mínimo no canto dos lábios. Em dado momento, minhas palavras se esgotaram. E ficamos ali. Em silêncio.

No início, foi desconfortável. Eu podia ouvir minha própria respiração, o zumbido de uma abelha perto das flores do jardim, o vento balançando as folhas da mangueira. Mas, aos poucos, aquele silêncio começou a se transformar. Deixou de ser um vazio para se tornar um espaço compartilhado. Naquele silêncio, eu senti a tranquilidade dele, a aceitação do tempo, a paz de simplesmente estar. Não havia pergunta que precisasse de resposta, nem história que precisasse ser contada. A companhia bastava. Aquele silêncio dizia: “Estou aqui com você. E isso é o que importa”.

Existem muitos tipos de silêncio, e cada um tem sua própria gramática. Há o silêncio pesado que se instala depois de uma briga, denso de palavras não ditas. Há o silêncio cúmplice entre dois amigos que, com um simples olhar, entendem tudo. Há o silêncio reverente diante de uma paisagem espetacular. E há o silêncio do consolo, que diz “você não está sozinho” sem precisar de uma única palavra.

Ah, se pudéssemos estender esse poder para o mundo. Sonho com um silêncio que fosse, acima de tudo, ausência. Que eu não precisasse mais ouvir o ruído dos tiros, fossem onde fossem. Que o soluçar do choro que se segue a eles não invadisse mais as madrugadas. E que, em vez disso, todas estas coisas me acordassem com o eco de gargalhadas silenciosas, aquelas que vêm da alma, da pura alegria de existir em paz.

Nessa paz, redescobriríamos a felicidade de, silenciosamente, escutar a natureza. Não o silêncio mudo, mas aquele preenchido pelo farfalhar das folhas, pelo murmúrio de um riacho, pelo canto dos pássaros que não precisa competir com a cacofonia humana. É um silêncio que nos lembra de onde viemos, que nos reconecta com um ritmo mais antigo e verdadeiro. Nele, não há solidão, apenas uma profunda sensação de pertencimento.

As palavras são ferramentas poderosas, constroem alicerces e declaram amores, mas também podem ser imprecisas. O silêncio, em sua forma mais honesta, não engana. É o palco onde a verdadeira conexão acontece.

Naquela tarde na varanda, meu avô finalmente virou-se para mim, pôs a mão sobre a minha e disse: “É muito bom, não é? Ficar quieto um pouco!”. Foi tudo. E foi o suficiente. Naquele instante, entendi que a intimidade mais profunda não reside nas conversas intermináveis, mas na capacidade de compartilhar o silêncio sem se sentir perdida. Porque, às vezes, é no silêncio que a gente finalmente se escuta.

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