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Vorcaro— Há algo de porco nesse nome…

Arte
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Por Edmilson Sanches

Você sabe do que é feita a calabresa? (Sim, a linguiça).

Em geral, a linguiça calabresa é feita de duas partes dos suínos — o lombo e a paleta. “Paleta” (do italiano “paletta”, pequena pá) é o nome que se dá à espádua ou escápula, omoplata ou, no popular, ombro do porco e outros animais. Misturada a uma gordurinha e a uma pimentinha, basicamente compõe-se assim uma das mais famosas tripas recheadas.

Dois tipos de linguiça sobressaem-se: a portuguesa e a dita calabresa — esta praticamente um sinônimo dessa carne moída e temperada. Além da carne suína, também fazem-se linguiças de outras carnes, entre estas a de boi e a de frango.

A linguiça calabresa, por óbvio, tem origem na Calábria, antiga região do sul da Itália, bem no bico da “bota” — para quem não sabe, o mapa da Itália é mesmo muito parecido com uma perna com bota “chutando” uma “bola” quase triangular, que é a ilha da Sicília.

Pois bem. Das várias etimologias que se dão para o nome “Calábria”, fiquemos com aquela que diz significar o topônimo “terra fértil”, uma interpretação dos elementos gregos “kállos-“ e “-brúo”, que trazem a noção de “beleza” e “crescimento”. Portanto, a Calábria era uma terra onde a pastagem crescia belamente, apropriada para o pastoreio de animais, neste caso, dos porcos que ali há muito são criados e, após abatidos, vão terminar como embutidos — as linguiças.

O mundo deve o adjetivo “calabresa” e a diferenciada e picante linguiça à Calábria. Mas esta região italiana de mais de 15 mil quilômetros quadrados e 2 milhões de habitantes exportou para o mundo não somente seu produto suíno como também os produtores dele, ou seus descendentes, familiares.

Como se sabe, em língua italiana — mas não apenas nela — muitos nomes de pessoas (os antropônimos — prenomes, sobrenomes) têm origem no tipo de profissão ou atividade com que se ocupavam os trabalhadores ítalos. Nesse processo de formação dos nomes, surgiu, por exemplo, “Ferraro”, dado originalmente à pessoa que trabalhava com ferro, o ferreiro. Também “Scarparo”, para sapateiros. E “Carbonaro”, para carvoeiros. E vai por aí. Nos três exemplos acima, a terminação “-aro” vem do sufixo latino “-arius”, que indica, além de profissão ou trabalho, o ajuntamento de objetos, plantas, animais (porcos, por exemplo) e, ainda, serve para designar habitantes de uma localidade.

Nesse rumo, parece natural que, para quem fosse criador de porcos, ou alguém que trabalhasse na criação deles, o nome dado era “Porcaro”. Tal é a “influência” dos porcos naquele sul da Itália que até um apreciado cogumelo comestível, cientificamente chamado “Boletus edulis”, é conhecido como “fungo porcino”, isto é, “cogumelo de porco”, e ainda lembra um termo da antiga Roma, “suilli”, que, nitidamente, tem a ver com “sus” (“suíno”). Entre as razões da conexão do nome do fungo com os suínos está na natural habilidade dos porcos, por meio do faro, localizar e gostar de comer esses cogumelos.

(Aqui, um parêntese em consideração aos estudiosos: a língua italiana tem duas palavras para designar os animais da família dos suídeos — “porcus”, para o porco novo ou leitão, e “sus” (origem de “suíno” em português), para o porco já grande, adulto. Como admitem alguns etimologistas (os especialistas em origem das palavras), em algum momento houve uma “confusão lexical” e terminou o substantivo “porco” nominando de modo geral o suíno de qualquer idade, ainda que permanecendo (como em língua portuguesa) as designações de “leitão”, “bacorinho”, “porquinho”, para porco novo; “varrão”, para porco reprodutor etc. Diga-se que essa diferenciação linguística não ocorria/não ocorre em italiano e latim apenas com o termo “porco”: a ovelha novinha chama-se “agnus”; a adulta, “ovis”. O boi novo tem o nome de “vitulus” (bezerro, boizinho, garrote, novilho, vitelo) e o boi adulto, “bos”. E há outros exemplos.).

É da região da Calábria, terra boa para a criação de porcos e exportação da linguiça de porco, que veio para o Brasil, especificamente para Minas Gerais, o senhor Michele Porcaro, nascido em 1884. Casou-se em 1920 com a brasileira Laurita Damas Sampaio. Dessa união nasceu o filho Serafim de Paula, que recebeu o sobrenome “Porcaro” modificado para “Vorcaro”, supostamente para evitar eventual e maldosa associação: “Porcaro”… “porco”… “porcaria”.

Por sua vez, o senhor Serafim transmitiu “Vorcaro” para seu filho Henrique, nascido em 1964, que legou o sobrenome para seu filho Daniel Vorcaro, nascido em outubro de 1984, em Belo Horizonte.

Sim, esse Daniel Vorcaro é ele mesmo, o ex-banqueiro e nome que ocupa nacionalmente a atenção dos mundos da Imprensa/Mídia, Economia/Bancos, Política/Poderes, Justiça/Lei, Polícia/Crimes, no mais rumoroso caso de desvio, primeiro, de caráter, e consequente desvio(s) de dinheiro. Se brincar, chegará à décima parte de um trilhão de reais (ou cem bilhões) a soma de valores envolvidos e ainda não devolvidos…

Foi a região da antiga Calábria que primeiramente abrigou o nome que seria dado a todo o país — Itália. A Calábria é, por assim dizer, a pátria toponímica da Repubblica Italiana, a designação oficial da Itália, nome que procederia de antigo nome (“Italós”/”Italói”) com significado de “touro”, pois ali, na fértil terra calabresa, onde também se criavam porcos tipo exportação, se viam bovinos aos montes ou manadas.

Nenhum criador calabrês de porcos tem nada a ver com as alterações de caráter e de nome dos “oriundi” descendentes de família calabresa Porcaro.

Ao mudar o nome de Porcaro para Vorcaro, o avô Serafim queria evitar que, por meio do nome ancestral, uns e outros fizessem associações maldosas com seus descendentes. Não podia seu Serafim prever que, anos mais tarde, descendentes seus (pelo menos um filho e um de seus netos, entre outros familiares) pudessem sujar tanto o nome que ele, exatamente, cuidou de vacinar contra males… “morais” (ops!).

Como fatídica e lamentavelmente se vê, não é a alteração de um nome que o impede de ele se tornar sujo…

Ao escolher — voluntária, consciente e ardilosamente — o caminho da fraude, da corrupção, do crime, Daniel Bueno Vorcaro negou o esforço de seu avô e novamente associou o nome da família àquilo que, “mutatis mutandis”, vovô Serafim queria impedir. Daniel sujou Vorcaro. Jogou-o na lama. Desrespeitou-o.

Lama é algo de que porcos gostam.

E respeito é o que outras famílias Porcaro e Vorcaro merecem…

*

Ao, pressurosamente, bem intencionadamente, alterar o nome Porcaro para Vorcaro, seu Serafim queria evitar que outros “emporcalhassem” o nome de família. Ele não poderia imaginar que as nódoas indeléveis no sobrenome viriam de alguém do grupo familiar…

Que não se envergonhem os menos de três mil habitantes da cidadezinha italiana de Rovito, na Calábria, de onde vieram os Vorcaro.

Nem toda maçã podre contamina todo o cesto.

Nem toda ovelha ruim põe a perder todo o rebanho.

Nem todo porco desviado desvia toda a porcada.

Nem sempre o cocho onde alguns porcos comem é o cocho onde todos os porcos comem.

Linguisticamente, o nome Vorcaro tem algo de porco.

Mas, decididamente, não foi o porco que “manchou” o nome Vorcaro.

Foi o Vorcaro quem sujou o nome dos porcos…

EDMILSON SANCHES
PALESTRAS / CURSOS / CONSULTORIA
Administração (Pública e Empresarial) – Biografias
Comunicação – Desenvolvimento – História – Literatura – Motivação
CONTATO: edmilsonsanches@uol.com.br
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