“O que intervém na relação de amor, o que é demandado como signo de amor nunca passa de alguma coisa que só vale como signo. Ou, para ir ainda mais adiante, não existe maior dom possível, maior signo de amor que o dom daquilo que não se tem. Mas vamos observar bem que a dimensão do dom só existe com a introdução da lei. Como nos afirma toda a meditação sociológica, o dom é algo que circula, o dom que vocês fazem é sempre aquele que receberam. Mas quando se trata do dom entre dois sujeitos, o ciclo de dons vem ainda de outra parte, pois o que estabelece a relação de amor é que o dom é dado, se podemos dizê-lo, em troca de nada.” (Seminário 4, p.142)
“No ato do amor, é a mulher que recebe realmente, ela recebe bem mais do que dá. Tudo nos indica, e a experiência analítica o acentuou, que não existe posição mais captadora, até mesmo mais devoradora no plano imaginário. Se isso é invertido na afirmação contrária, que a mulher se dá, é na medida em que deve ser assim simbolicamente, a saber, que ela deve dar alguma coisa em troca daquilo que recebe, isto é, o falo simbólico. Aí está, pois, o fetiche, nos diz Freud, representando o falo como ausente, o falo simbólico. Como não ver que é necessária esta espécie de inversão inicial para que possamos compreender coisas que, do contrário, seriam paradoxais? Por exemplo, é sempre o menino que é fetichista, nunca a menina. Se tudo residisse no plano da diferença, ou mesmo da inferioridade imaginária, entre os dois sexos, seria de preferência naquele que é realmente privado do falo que os fetichismos e deveria declarar mais abertamente. Ora, não é nada disso. O fetichismo é excessivamente raro na mulher, no sentido próprio e individualizado em que ele se encarna num objeto que podemos considerar como respondendo, de uma maneira simbólica, ao falo como ausente.” (Idem, p.156/157)
“Não é à toa que lhes repiso desde sempre que o amor é dar o que não se tem. É esse, inclusive, o princípio do complexo de castração. Para poder ter o falo, para poder fazer uso dele, é preciso, justamente, não o ser. Quando voltamos às condições em que parecemos sê-lo – porque também o somos, não há dúvida disso quanto ao homem, e, quanto à mulher, voltaremos a dizer porque incidência ela é levada a sê-lo -, pois bem, é sempre muito perigoso.” (Seminário 10, p.122)
“Como é que o objeto da identificação, é também o objeto do amor? Ele o é na medida em que arranca metaforicamente o amante, para empregar o termo medieval e tradicional, do status em que ele se apresenta, o de amável, eromenos, para transformá-lo em erastes, sujeito da falta, mediante o que ele se constitui propriamente no amor. É isso que lhe dá, se assim posso dizer, o instrumento do amor, uma vez que se ama, que se é amante – voltaremos a isso – com aquilo que não se tem.” (Idem, p.131-132)
E desejo sexual:
“O desejo, seja ele qual for, em estado de desejo puro, é algo que, arrancado do terreno das necessidades, ganha uma forma de condição absoluta em relação ao Outro. Ele é a margem, o resultado da subtração, por assim dizer, da exigência da necessidade em relação à demanda de amor. Inversamente, o desejo apresenta-se como aquilo que, na demanda de amor, é rebelde a qualquer redução a uma necessidade, porque, na realidade, não satisfaz a nada senão ele mesmo, ou seja, ao desejo como condição absoluta. É por essa razão que o desejo sexual entra nesse lugar, na medida em que se apresenta em relação ao sujeito, em relação ao indivíduo, como essencialmente problemático, e nos dois planos da necessidade e da demanda de amor.” (Seminário 5, p.395)
Retirado do site TRECHOS DOS SEMINÁRIOS DE JACQUES LACAN (POR TEMAS) – Seção São Paulo





