Na Serenata & Cia., passei a vida fazendo gente chorar de emoção, suspirar de amor e esquecer da empresa. Mas há um detalhe que o público desconhece: enquanto os casais vivem momentos inesquecíveis, nós, músicos, protagonizamos constrangimentos igualmente memoráveis!
Já enfrentamos instrumentos que morreram em serviço, sapatos que abriram o bico, caixas de som em greve e roupas que pediram alforria. Fazer serenata é uma arte; terminar o evento com tudo funcionando e a calça no lugar é praticamente um milagre!
Em Pinheiros, Paulo esqueceu a flauta sobre o teto do carro. O barulho denunciou a passageira prateada. Engatei a ré, mas era tarde: a flauta caiu, encurvou-se e encerrou a carreira musical. Sem velório, sem última nota, mas com testemunhas!
No Itaim, outro músico repetiu a façanha. Felizmente, tocava bandolim. A flauta morreu, mas a carreira sobreviveu. É bom ter plano B, principalmente quando o plano A é atropelado!
Num trabalho de Natal, a bandinha chegou atrasada porque um saxofone havia sido esquecido na calçada. Procuraram, procuraram… nada! O quarteto virou trio, e o músico perdeu o equivalente a meses de trabalho. Nem Papai Noel localizou a encomenda!
Nosso violinista Valdemar também viu duas cordas se romperem durante uma serenata. Havia um piano na sala, e ele sabia tocá-lo. A noite foi salva. Quando um instrumento se cala, outro pode assumir o expediente.
Depois da pandemia, descobrimos que os sapatos também sofrem com o isolamento: alguns abriram o bico em pleno evento. Enquanto esperávamos a volta dos abraços, nossas solas planejavam o divórcio!
As caixas de som também já entraram em greve. Improvisamos, resolvemos e seguimos. E houve minha camisa branca, que rasgou quando entrei no carro. Parecia o Incrível Hulk entrando no possante, só que sem músculos verdes e com a dignidade por um fio!
O saxofonista também teve calças vencidas pelo entusiasmo dos movimentos. Há momentos em que a música toca o coração; em outros, ameaça expor o músico por inteiro!
No fundo, a vida é assim: instrumentos quebram, sapatos se abrem, roupas se rasgam e planos falham. O segredo é improvisar sem perder o humor. E nem contei nossas aventuras no trânsito caótico de São Paulo!
Passei a vida ajudando pessoas a criar boas memórias. Hoje percebo que nossos desastres também viraram parte delas.
Porque, na Serenata & Cia., nunca sabemos se terminaremos a noite com aplausos, lágrimas de emoção ou uma reunião de emergência para recolher os pedaços da equipe. Só falta alguém chegar carregando a própria calça debaixo do braço!
A música pode parar, a flauta cair, a sola partir e a calça abrir. Mas, enquanto houver histórias para contar, companheiros para rir e alguém disposto a cantar, a serenata continua!





