Por Patrícia Beltrão
Esta não é uma coluna sobre história das mulheres, porém, para se entenderem enredos psicanalíticos, é preciso registrar que, historicamente, elas são as “fundadoras” da teoria freudiana, tornando possível o estudo iniciado através da observação da neurose histérica para organização de sua obra, há mais de cem anos, até hoje tão pesquisada e incessantemente discutida. Se Freud não as tivesse escutado, não haveria tão minuciosa atenção à fala, ao discurso, ao desejo, à castração e seus efeitos no corpo, à lógica fálica, à criação da regra da associação livre (ao obedecer ao comando de “cale-se e me deixe limpar a chaminé” ordenado por uma de suas pacientes), permitindo interpretações e um material inesgotável para os psicanalistas pós-freudianos, a partir de 1885, aproximadamente.
A letra Escarlate, romance escrito por Nathaniel Hawthorne em 1850, passa-se no século XVII, em uma comunidade bem puritana de Boston, onde a personagem Hester é condenada a carregar a letra A em sua roupa exposta, após sair da prisão, como punição de seu adultério constatado por uma gravidez, estando com seu marido ausente da cidade há um ano. Nas vestimentas de seu corpo fica a inscrição da lei, do julgamento moral, de sua transgressão intolerável pela ordem social; é reduzida totalmente ao significante de impura e adúltera. Contudo, apesar de ser excluída do convívio da sociedade, ela cria sua filha, sem apoio, com liberdade e muito amor, trabalha, não permite que esse significante a condene por seu corpo desejante e não se torna a própria transgressão nomeada pela sociedade. A personagem subverte sua própria tragédia com determinação e coragem, assim como Albert Camus escreveu no Mito de Sísifo, em 1942, assumindo o absurdo de sua pena de forma controlada e dando um sentido maior à sua existência. A personagem não denuncia o amante, um pastor da própria comunidade, e segue com sua nova identidade que a letra lhe atribuiu, revelando que a marca não precisa determinar todos os sentidos de sua subjetividade e valor.
Dentro do contexto social escrito, a sexualidade ameaça a ordem, a moral religiosa e desvia o controle do desejo, necessitando do castigo como advertência coletiva para seguir com a construção histórica, social e cultural da feminilidade disciplinada e suas possibilidades de existência. O romance mostra o conflito sobre quais formas de desejar são consideradas legítimas e o desamparo ao tentar corresponder às expectativas alheias. Hester não representa uma libertação, mas a possibilidade de existir e viver dentro de uma nova experiência para além do que lhe aconteceu, estando ela acolhendo seu corpo feminino, consciente de sua culpa, e o amante preservando sua posição de autoridade, vendo tudo acontecer com olhar neutro estampado no semblante cristão. E, desta forma, a história mostra que nada esgota a singularidade de ser esta mulher condenada a não pertencer mais ao espaço social, mas, mesmo assim, reconhece que sua existência não precisa coincidir com a letra que lhe deram.
Na multidão, o contágio psíquico predomina; permite impulsos recalcados que encontram ali, no coletivo e anônimo, coragem para criticar e julgar sem autonomia ética. O ego vira massa e a identificação pessoal se torna a voz do Outro.
A pergunta fica: quem tem o direito de escrever a letra A que o outro precisa carregar? A definição da verdade é insuficiente para fechar respostas, pois ela é perspectiva, jamais absoluta. Se há alguma conclusão, só sabemos que o sujeito é sempre ser de linguagem, isto é, de cultura, sob as ordens de determinada sociedade, disposição simbólica e inseparável do discurso do Outro.
E sobre esse “O” maiúsculo quando me refiro ao Outro? A resposta deixo num brotar curioso para um próximo texto…
Patricia Beltrão – Psicóloga & Psicanalista
Autora do livro Pra ser Humano, editora Viseu,2023. Coautora da Antologia Vozes do Luto, 2025. Contato: @psi.patriciabr
- Nota: confesso minha escolha pelo clássico citado por inspiração do prof. dr. em Literatura José Garcez Guirardi, pela delicadeza de suas @assementesdotempo.





