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Ars Gratia Artis: O que deixei por aqui 

Foto: Pixabay
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Às vezes me pergunto o que deixei por aqui.

Não sei se foram histórias, poemas, lembranças, homenagens, reflexões ou apenas pedaços de mim que, em determinado momento, precisaram ganhar palavras. Talvez tenha sido tudo isso.

Ao longo do tempo, passei por tantos lugares sem sair desta página. Conheci homens e monstros, lobos e príncipes, guardiãs e almas atormentadas. Visitei circos estranhos, vales sombrios e sonhos impossíveis. Falei de amor — algumas vezes do amor que permanece, outras do que se perde, e tantas vezes daquele que talvez só exista porque insistimos em procurá-lo.

Trouxe comigo personagens, escritores, poetas, músicos, filósofos e pensadores. Alguns vieram de muito longe, separados por séculos; outros estavam aqui, ao alcance de uma conversa. Todos, de alguma forma, tinham algo a dizer.

Também falei de mim, mesmo quando parecia estar falando de outra coisa.

Falei de memórias. De pessoas que passaram pela minha vida e das que nunca passaram, porque sempre estiveram. Da infância que insiste em sobreviver dentro do homem que envelhece. Dos amigos. Dos encontros. Das despedidas. Daquilo que o tempo leva e, misteriosamente, também conserva.

Mas a Ars Gratia Artis nunca foi apenas um lugar para as minhas palavras.

Talvez uma das coisas de que mais me orgulho seja ter aberto esta porta para outras vozes. Porque acredito que uma história não precisa ser famosa para merecer ser contada. Um poeta não precisa ser conhecido para ter poesia. Um escritor não precisa ter milhares de leitores para tocar profundamente um único coração.

Por aqui, a realidade e a fantasia nunca precisaram escolher lados. A razão conviveu com o mistério. A alegria sentou-se ao lado da tristeza. A vida foi questionada, celebrada, inventada e, algumas vezes, simplesmente observada em silêncio.

E assim fui escrevendo.

Sem saber, muitas vezes, onde uma ideia iria terminar. Sem imaginar que um texto encontraria alguém. Sem qualquer garantia de que uma palavra sobreviveria ao dia em que foi publicada.

Hoje, olhando para tudo, percebo que esta coluna é um pouco como a própria vida: cheia de caminhos que não se encontram, personagens que permanecem, histórias interrompidas, ausências que ganham nome e sonhos que se recusam a morrer.

Não sei definir a Ars Gratia Artis em poucas palavras.

Talvez porque ela nunca tenha sido uma coisa só.

Ela é aquilo que me emociona, me inquieta, me diverte, me revolta e me faz pensar. É o que encontrei nos livros, nas pessoas, nas ruas, na memória e dentro de mim.

E, enquanto ainda houver uma história esperando para ser contada, uma lembrança que se recuse a desaparecer ou uma palavra procurando seu lugar no mundo… eu ainda terei algo para deixar por aqui.

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