“Uma noite, estas reflexões valiam-me a companhia de um livro, ou de um jornal, ou de um cigarro, ou de nada; eu ficava a olhar para o teto, vendo passar as sombras das horas. A memória é um teatro de sombras, onde a gente vê desfilar os mortos e os vivos, os que amamos e os que odiamos, os que nos fizeram bem e os que nos fizeram mal. E, contudo, a gente continua a viver, como se nada disso tivesse acontecido.
Olhei para a minha mão, uma mão já marcada pelo tempo, e pensei em como ela tinha escrito tantas páginas, segurado tantas outras, e como, no fundo, ela não sabia de nada. A vida é um tecido de contradições. Eu buscava em Capitu o que não encontrava em mim, e talvez fosse essa a minha maior tragédia: procurar no outro a completude que me faltava. A gente se casa, a gente tem filhos, a gente envelhece, e o mistério permanece lá, intacto, no fundo dos olhos de quem vive ao nosso lado.
Às vezes, penso se tudo não passou de um sonho, uma construção da minha mente inquieta. Será que ela me amou? Será que eu a amei como deveria? As perguntas são como fantasmas que não se deixam exorcizar. Eu me lembro do brilho dos olhos dela, aquele brilho que parecia conter o mundo inteiro, e depois, o vazio. O vazio que fica quando a gente percebe que nunca conheceu verdadeiramente ninguém. Nem a si mesmo.
O Rio de Janeiro daquela época, com suas ruas estreitas e suas casas de sobrados, parece agora um cenário de ópera, algo distante e irreal. Eu me sentava na varanda e via a vida passar, os bondes, as pessoas apressadas, o destino de cada um sendo traçado em silêncio. E o meu destino? O meu destino foi escrever, foi tentar prender o tempo em palavras, como quem tenta segurar a água com as mãos.
A literatura é a nossa última tentativa de não morrer inteiramente. É o registro da nossa dor, da nossa alegria, da nossa dúvida. Se eu não tivesse escrito, talvez a minha vida tivesse sido apenas um sopro, um nada perdido no meio de tantos nadas. Mas ali, naquelas páginas, eu me fiz eterno, ou pelo menos, fiz eterna a minha angústia. E, no fim, é isso o que importa. A gente deixa um rastro, mesmo que seja um rastro de cinzas. A gente deixa uma voz, mesmo que seja uma voz que ninguém mais quer ouvir. Eu sou o que escrevi, e o que escrevi é o que sou. E, por mais que o tempo passe, essas palavras continuam aqui, pulsando, vivas, esperando por alguém que, como eu, também se sinta perdido neste vasto teatro da existência.”





