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Ars Gratia Artis:’Sob a sombra do medo: como era viver sob a ditadura militar no Brasil’

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Há períodos da História que não podem ser compreendidos apenas pelos livros, pelas datas ou pelos nomes que ocuparam o poder. É preciso imaginar como era acordar pela manhã sem saber se a liberdade de pensar, falar, escrever ou simplesmente discordar continuaria sendo um direito naquele dia. Viver no Brasil durante a ditadura militar, instaurada em 1964, era conviver com a presença, muitas vezes silenciosa, do medo.

O golpe não mudou apenas o governo. Mudou a maneira como as pessoas se relacionavam com a política, com a informação e até com as próprias palavras. A censura atingia jornais, livros, músicas, peças teatrais e filmes. Artistas e intelectuais precisavam encontrar caminhos para expressar aquilo que não podia ser dito abertamente. Nas entrelinhas, nas metáforas, nos versos e nas imagens, a arte tornou-se, muitas vezes, uma forma de resistência.

Mas a ditadura não era vivida da mesma maneira por todos. Para alguns, significava a prisão, a tortura, o exílio e o desaparecimento de pessoas queridas. Para outros, manifestava-se na autocensura, nas conversas interrompidas quando alguém desconhecido se aproximava, na desconfiança e na sensação de que uma palavra mal colocada poderia trazer consequências imprevisíveis. Havia também quem, por convicção ou conveniência, apoiasse o regime, enquanto muitos preferiam não se envolver. O silêncio, entretanto, nem sempre significava concordância: às vezes, era apenas uma estratégia de sobrevivência.

A partir de 1968, com o Ato Institucional nº 5, a repressão se aprofundou. Direitos foram restringidos, opositores perseguidos e a violência do Estado ganhou ainda mais espaço. A promessa de ordem e segurança convivia com a supressão das liberdades. O país seguia funcionando, as pessoas trabalhavam, estudavam, namoravam, criavam filhos e frequentavam cinemas. A vida cotidiana não desaparecia. O que se alterava, profundamente, era o preço que se podia pagar por desafiar os limites impostos.

É nesse contexto que reconheço a grandeza da arte. Mesmo quando submetida à censura, ela preservou perguntas, denunciou injustiças e alimentou a imaginação de um país diferente. A canção, o teatro, a literatura e o cinema demonstraram que a criação artística não é um luxo dispensável, mas uma das formas pelas quais uma sociedade pensa a si mesma e resiste à opressão.

A ditadura terminou, mas a memória não pode terminar com ela. Lembrar não significa cultivar ressentimentos, tampouco reduzir a História a uma disputa de versões. Significa reconhecer o sofrimento das vítimas, compreender os mecanismos que permitiram a violência e defender as instituições que protegem nossos direitos.

A liberdade parece natural quando a temos. Só percebemos sua dimensão quando ela nos é retirada. Há erros que não podem ser repetidos, estejamos atentos.

Talvez a maior lição daquele período seja esta: nenhuma sociedade está imune ao autoritarismo. Absurdo seria escolher por livre vontade, nas urnas, algo ainda pior do que foi esse tenebroso período. 

Afinal, se a arte existe pela arte, ela também existe pela humanidade. E não há beleza verdadeiramente livre onde o pensamento precise pedir licença para existir. 

O voto é secreto, mas não precisa ser nas sombras.

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