A gente vive esperando a data certa pra sentir. Como se o coração tivesse agenda… e pior: como se respeitasse feriado. Em 25 anos de estrada, aprendemos o contrário.
Teve uma cliente na Granja Viana, em São Paulo, que escolheu justamente o Dia do Trabalhador para fazer sua despedida, olha a ironia: enquanto o mundo falava de trabalho, ela falava de vida. Reuniu família, amigos e celebrou o amor como quem sabe que o tempo não dá aviso prévio. Não contou o motivo ali. Mas disse algo que ficou: que a serenata liga o ontem ao agora. Dias depois, partiu. E deixou uma pergunta no ar: de que adianta trabalhar tanto e amar tão pouco?
Em outro dia, desses que alguém resolveu chamar de Dia Mundial do Amor, a gente entrou numa casa comum e saiu de lá com algo raro. Um pai quieto, econômico até no olhar, de repente resolveu falar. E quando abriu a boca… veio abraço, pedido de desculpa, veio lágrima atrasada. A família ficou sem saber se chorava ou aplaudia. No fim, fez os dois. Porque às vezes o amor não falta, só está mal ensaiado.
E teve também um hospital, perto do Ibirapuera. Lugar onde a vida e a pressa andam de mãos dadas. Ali, no clima do Dia da Língua Portuguesa, a gente virou tradutor de sentimento. Um médico tímido, tímido num nível quase profissional, pediu ajuda para dizer que sozinho não dava conta. Fomos pelos corredores, cantando baixo, como quem pede licença pra emoção entrar. A resposta não veio na hora. E tudo bem. Nem todo “sim” precisa ser imediato para ser verdadeiro.
Dois anos depois, ele o chamou de novo. Outra cena, outra luz, mesma história em continuação. Agora juntos. A gente só pensou: ainda bem que ele não desistiu no silêncio do primeiro capítulo.
No fim das contas, essas datas todas, trabalho, amor, palavra, são praticamente a mesma coisa com nomes diferentes. A gente inventa rótulos para organizar o caos bonito que é sentir. E tem mais um detalhe que pouca gente percebe: todas elas caem no mesmo dia, 01 de maio.
E talvez seja aí que a gente se engana bonito.
Porque não é o calendário que marca o momento… somos nós que, às vezes, desmarcamos a vida.
A gente adia o abraço, revisa demais a frase, ensaia tanto o gesto que ele perde a coragem. Espera o “dia certo”, como se o tempo fosse educado o suficiente pra esperar a gente também.
Então, no fim, e sem romantizar demais, a vida é meio desorganizada mesmo. Ela entra sem bater, mistura despedida com reencontro, coloca riso no meio do choro e, quando você vê… já virou memória.
E a memória, meu amigo, não aceita reagendamento.
Por isso, se for pra errar… errar fazendo.
Se for pra falar… fala meio torto mesmo.
Se for pra amar… não espere o próximo 01 de maio.
Porque, quando a gente deixa pra depois, o depois costuma ter uma péssima mania: ele não chega.





