presentamos a crônica “Vem! Vem me dar um abraço” — um apelo poético e urgente pela paz, escrito como um pedido de amor ao mundo. Um mundo onde o ruído da violência muitas vezes abafa as vozes da razão.
Uma leitura essencial sobre a urgência do afeto como resposta à barbárie, o texto transforma o gesto simples do abraço em tratado de reconciliação e fim da violência.
Leia, e junte-se a esse convite: que o afeto seja o primeiro passo para desarmar corações e territórios.
Vem! Vem me dar um abraço
Ana Maria Tourinho
O mundo sangra. Em nossas cidades, pelas ruas, não corre apenas sangue, mas uma hemorragia de pólvora e desamor. O ar, pesado, tem o gosto acre do medo e o cheiro amargo da perda. Vivemos sob um céu de concreto, e a nossa trilha sonora são os ecos de tiroteios ao longe, a sinfonia dissonante das sirenes e o silêncio pesado que se instala depois.
Cada rosto no noticiário conta a história de uma vida interrompida, cada portão fechado é o epitáfio de um sonho de vizinhança. A linguagem universal tornou-se o grito, e o toque, um gesto de recuo. Construímos muros, físicos e invisíveis, tão altos que já não vemos o sol, apenas a sombra uns dos outros, distorcida pela desconfiança.
Mas, por entre o ruído e o discurso de ódio dos que lucram com a dor, uma voz ancestral se ergue, frágil, porém teimosa. Não é um decreto, nem um tratado assinado com tinta e sangue. É um sussurro que nasce no peito, uma prece que viaja no vento, um chamado à única verdade que ainda pode nos salvar: Vem! Vem me dar um abraço.
Este não é um convite à rendição, mas ao mais corajoso dos atos: o desarmamento da alma. É um chamado para baixar a guarda antes de baixar a cabeça, para oferecer o peito aberto não como alvo, mas como abrigo.
Imaginem o policial largando a arma, não por ordem, mas por um impulso do coração, para abraçar o jovem da periferia que ele foi treinado para ver como ameaça. Imaginem esse mesmo jovem, desarmando-se de sua raiva e desconfiança, para encontrar naquele abraço não um opressor, mas outro corpo que treme, outro coração que pulsa no mesmo ritmo de medo e esperança.
Este abraço é a rendição mútua, não em derrota, mas em reconhecimento. Nele, a paz deixa de ser uma palavra vazia para ganhar corpo, calor e respiração. O silêncio que se seguiria não seria o do medo, mas o da compreensão. Teria o cheiro de café passado na casa do vizinho, e a liberdade, o gosto do pão dividido na calçada, não mais comido às pressas dentro de casa, atrás de grades.
Nesse abraço, os terrenos baldios da desconfiança se tornariam praças e jardins. As fábricas de armas se transformariam em escolas onde as crianças aprenderiam que a única batalha que vale a pena lutar é contra a própria ignorância. As palavras de ódio, agora inúteis, dariam lugar à primeira de todas as palavras: irmão.
Este é um convite urgente. Um apelo. Antes que a última luz se apague, antes que o último coração se feche em sua armadura de medo, antes que nos esqueçamos do calor de outro ser humano. É um chamado para o político e para o morador de rua, para o empresário e para o entregador, para quem julga e para quem é julgado.
Para todos nós.
Vem! Vem me dar um abraço.





