A região do Cariri, no sul do Ceará, se destacou das demais localidades interioranas, afastadas do litoral, por apresentar uma vegetação verde, com fontes de águas cristalinas, onde surgiram importantes núcleos populacionais, tais como: Crato e Jardim.
Crato, em 1816 foi elevada a Sede da Comarca, primeira após Fortaleza, por ser a mais populosa e desenvolvida da Região do Cariri. A sua projeção política em relação aos outros povoados da região, estava relacionada ao sucesso de suas atividades agrícolas e comerciais que eram desenvolvidas, desde o século XVII, bem como da boa relação que mantinha com os pernambucanos que possuíam um dos principais portos do Nordeste. Relações essas que tiveram sua importância para o desenvolvimento das idéias liberais que ecoavam país afora e disseminadas na região do Cariri.
Antes mesmo do Brasil se tornar independente, os cearenses se uniram e decidiram se tornar um país independente. Decisão que durou pouco mais de uma semana, mas que apesar do pouco tempo, os revoltosos conseguiram formar um governo provisório e convencerem a vila vizinha, Jardim, se declararem independentes. Tal iniciativa tinha como objetivo dar um basta ao poderio dos portugueses de Icó.
A revolta teve início em 06 de março de 1817, em Pernambuco. Os pernambucanos se rebelaram contra os portugueses, contra as cobranças abusivas de impostos e a falta de autonomia dos comerciantes. Os militares se rebelaram, juntaram-se aos revoltosos, prenderam o governador e libertaram todos os presos políticos. Neste mesmo dia da rebelião foi montado um Governo provisório e em seguida mandaram mensageiros às outras províncias, para apoiarem a causa. A Paraíba e o Rio Grande do Norte foram os primeiros a apoiarem a revolta. Essa revolta foi, também, chamada de “Revolta dos Padres” , pelo fato do grande número de padres envolvidos.
O passado de prosperidade econômica da região, ainda era bem visível na sua elite, que tinha acesso à informação e à educação formal. A família Alencar mantinha uma relação muito próxima com os membros do Clero de Exu (PE), cidade natal de Bárbara Alencar. Esses clérigos eram, em sua maioria, formados no Seminário de Olinda, considerado um polo irradiador de idéias revolucionárias, onde os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade adivinhos do Iluminismo eram convertidos em críticas à Coroa Portuguesa e de seus impostos abusivos cobrados da população.Foi pelo seminário de Olinda que passou Martiniano Alencar e seu irmão Carlos José Alencar.
No Ceará a mensagem revolucionária chegou através de Martiniano Pereira de Alencar, seminarista e pai do escritor e autor do romance Iracema e de vários outros, José de Alencar. Fortaleza, apesar de ser a capital, em 1817 era uma vila pequena e pouco habitada que só tinha a seu favor o fato de ser a sede do Governo Provincial. As principais áreas produtoras da província estavam no Vale do Jaguari e do Cariri, onde havia a maior população e onde acontecia a maior parte do comércio, principalmente, o de carnes. Nesta época, além das riquezas, o Crato era uma comarca, ou seja, uma vila que concentrava funções político administrativas de áreas vizinhas. Razão pela qual várias vilas do sertão do Cariri e do Vale do Jaguaribe dependem , na época, do Crato.
Martiniano chegou em Crato no 29 de abril de 1817, acompanhado de sua mãe Bárbara Alencar e do vigário Miguel Carlos da Silva Saldanha,quase dois meses depois da revolta ter começado, no Recife. Após três dias da sua chegada, Crato, Martiniano e Bárbara procuraram apoio,para a revolta, junto às autoridades locais, às famílias influentes e aos chefes militares.
Então, no dia 03 de Maio de 1817, na missa de domingo da Igreja da Sé de Crato, na festa da Santa Cruz. Martiniano subiu no púlpito discursou sobre a sofrida realidade do Brasil colônia, leu o manifesto revolucionário de Pernambuco. Nesta hora ele e seus comparsas declararam a independência do Crato de Portugal e a formação de um governo republicano. A Revolução Pernambucana, nascida dois meses antes na Província vizinha, se manifesta no Ceará. Surge, a República do Crato. Em seguida os revolucionários foram da igreja para a Casa da Câmara ( como se fosse a câmara de vereadores de hoje e que, na época, mandava nos poderes executivo e judiciário), para oficializar a independência. Na manhã do dia 04 de Maio de 1817, Crato era oficialmente independente. A Revolução Pernambucana, inspirada nos ideais da Revolução Francesa de 1789, ecoou pelos rincões nordestinos e chegou à Vila de Crato, no Ceará.
No dia Seguinte (04/05/1817), dona Bárbara, líder da revolução, acompanhada de seus filhos Tristão, João, Carlos José, Leonel e de alguns revolucionários se dirigiram para a Vila vizinha de Jardim, onde residia seu tio Leonel de Alencar, que ocupava o cargo de Juíz ordinário. No dia 05 de Maio do mesmo ano, proclamaram a República e independência do local.
Os revoltosos se prepararam para invadirem a Vila de Icó, um ponto de comércio entre a região do Cariri, do Vale do Jaguaribe e Aracati, no litoral onde os produtos eram exportados para a Europa e outras províncias do Brasil. Icó, assim como Fortaleza e Crato, eram as vilas mais importantes do Ceará. Também considerada um reduto pró Portugal.
A invasão de Icó ficaria por conta de Pereira Filgueiras, que a princípio teria apoiado os revolucionários, mas tudo passou de uma estratégia. A República do Crato durou apenas oito dias. As tropas de Filgueiras fiéis à Coroa, sufocaram o movimento. Bárbara e vários envolvidos na revolta foram presos. Identificada como agitadora, conspiradora e conjurada, foi levada para a cadeia de Crato e em seguida algemada e acorrentada foi conduzida até Fortaleza, onde cumpriu sua pena. Somente em 1820, quase quatro anos depois, foi perdoada e retornou à casa.
Bárbara se envolveu ao lado de seus filhos nos demais movimentos republicanos dos anos seguintes, tais como a Confederação do Equador (Pe-1824). Ela se viu privada de 13 de seus parentes, dos quais seus filhos Tristão e Carlos José que foram executados. Faleceu em 1832, sem ver à família recuperar o seu prestígio com o filho Martiniano, que se tornou Senador e depois presidente do Ceará.
Bárbara Pereira Alencar, uma das líderes da revolução pela independência. A matriarca Alencar que ousou enfrentar e desafiar a Coroa Portuguesa e foi a primeira presa política do Brasil.





