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Nota sobre um prazer inusitado

As mãos dela tocaram a minha perna tão discretamente que ninguém naquele transporte público notou coisa alguma. Percebi que era uma mulher de meia-idade, mas não me virei em direção a ela para verificar as formas do seu rosto, apenas permaneci imóvel, como se nada estivesse acontecendo.

As mãos faziam carícias circulares, demoradamente. Eram quentes e eu podia senti-las macias e pequenas sobre o terno azul marinho que eu estava usando como de costume. A sensação era inebriante, não apenas pelo carinho abrasador, mas também por estar vivendo algo pouco convencional para uma noite de quarta-feira.

De repente, elas se tornaram ainda mais ousadas e tocaram a parte interna das minhas coxas. Eu sentia a respiração cada vez mais rápida e opressa, mas o prazer aumentava na mesma proporção da ansiedade de ser eventualmente flagrado em situação tão constrangedora.

A provocação aumentou. A desconhecida mulher chegou ao meu sexo com volúpia e ciência – certamente já tinha feito aquilo inúmeras vezes – enquanto eu me permitia desfrutar daquele calor delicioso vindo das mãos muito brancas e habilidosas, mas incrivelmente reservadas, pois ficavam algo escondidas sob o imenso cachecol vermelho que ela usava.

As apalpadelas ganharam particular intensidade e ela cerimoniosamente deslizou as mãos sobre o meu membro ereto de baixo para cima, de cima para baixo, como num ritual de acasalamento pagão. A excitação ganhava contornos de pura ficção e o mundo foi se tornando branco, fecundo e viscoso. Depois de minutos absorto no transe erótico, quase soltei um gemido visceral, mas me contive sóbria e resolutamente, disfarçando o estado de embriaguez.

Os dedos finos dela finalmente abandonaram meu corpo esfaimado e a mulher de cachecol vermelho se levantou delicadamente, sem olhar para mim um minuto sequer. Os passageiros continuavam impassíveis e entregues aos seus próprios devaneios. Tentei me recompor e organizar as ideias novamente, mas o fato é que perdi a estação na qual deveria desembarcar.

Já em casa, ainda alterado, tinha apenas uma certeza: meu banho antes de dormir seria transpassado por água quente, espumas perfumadas e desejos tórridos.

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Silvania

Fosse o poeta embrenhar-se pelas misteriosas terras mineiras, para encontrar-se diante da derradeira chama, a única chama com a qual queria ainda perseverar no ardor sisudo e intrincado da própria vida, prestes a evadir-se na respiração espiralada dos ventos.

Insistisse ainda o poeta na ânsia desmesurada de cantar o seu canto notívago,  mas caminhasse absorto em pensamentos tenebrosos onde a luz se tornava treva e a treva mesma convertia-se no sempiterno medo que apavora e afasta toda a gente.

Morresse o poeta no naufrágio cotidiano de seus fracassos e os temores se fizessem gritos desesperados de tristes árvores ribeirinhas e tudo morresse junto ao seu corpo consumido por afeções de rosas, sândalos e  místicos espinhos crísticos.

Revivesse o poeta nas montanhas verdejantes da Palma mineira, uma torrente iluminada abrindo-se aos seus olhos ensimesmados e o levassem para paragens de outras verduras e odores, onde reina estranha e misericordiosa paz.

E das águas de ouro soerguesse a linda mulher de olhos agateados,  braços alvos como torrões de açúcar colhidos à moda nordestina e cabelos volumosos, amendoados, liquefeitos ao sabor da chuva e da noite rutilante.

E Silvania fosse o nome tatuado nos seios puros e seus apelos de amante fossem tão irresistíveis, que o poeta deixaria prostrar-se diante da beleza vulcânica, para perder-se nos encantos das Minas Gerais onde a chama da vida insiste em não morrer.

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A traição

O poeta havia sido expulso da sociedade digital e condenado a viver eternamente numa ilha encantada. Seu crime? Ser incapaz de acreditar na justiça e na ciência humanas como símiles da verdade e, pior do que isso, ser um homem absolutamente inapto para quaisquer atividades comerciais que envolvessem a usura e a exploração como ética dos negócios. Os juízes, escolhidos a dedo, foram unânimes no veredito e ademais, toda a gente que assistiu ao julgamento pela televisão não tinha dúvida alguma sobre a culpa atribuída ao poeta. Cabia-lhe, portanto, o exílio imediato.

Na ilha encantada seu corpo era levado em incrível velocidade, do mar às colinas distantes, acompanhando a errática direção dos ventos e isto lhe causava dores insuportáveis. Era como se leões o devorassem por dentro, rasgando seus órgãos e vísceras de forma cruenta e impiedosa. Entretanto, logo depois da viagem pelos ares e de seu corpo ser abandonado na praia, os membros internos se recompunham e o dilaceramento continuava com a chegada de novos ares gelados.

Certo dia apareceu-lhe uma figura horrenda, meio bicho meio ser humano, cheia de estranhas escamas que cobriam a totalidade do corpanzil esverdeado. Ao invés de olhos, a criatura exibia duas enormes cavidades de onde explodiam chamas pontiagudas e lavas vulcânicas. Este monstro sentou-se no monte mais alto da ilha e começou a falar:

– Tu amas e confias em alguém na sociedade digital da qual foste expulso?

E o poeta respondeu-lhe:

– Sim, tenho certeza de que Mirela, minha mãe, faria tudo que pudesse para terminar com meu sofrimento.

O monstro, então, soltou uma gargalhada que fez acordarem todas as sentinelas de bronze que guardavam o nefasto lugar.

– Faço contigo uma aposta, preclaro poeta. Tu podes ligar para tua mãe e dizer que às 10 horas em ponto desta mesma noite, ela deve retornar tua chamada e se isto acontecer, estarás liberto da maldição que te consome.

Imediatamente, o beletrista ligou para a mãe e contou-lhe a proposta que havia ouvido da lamentável criatura. A resposta da senhora foi perempta:

– Amado filho, às 10 horas desta noite, eu ligarei e tu estarás livre do teu degredo.

Mirela havia sido convidada, entretanto, por seu filho mais novo a participar de uma grandiosa festa. A mansão era deslumbrante e carros luxuosos não paravam de chegar ao local. Os vestidos e as joias das mulheres em especial, pareciam feitas sob encomenda por príncipes árabes milionários.

Mirela entrou acompanhada pelo caçula no salão principal e de repente, estava cercada por muita gente. Todos queriam saber detalhes da sua vida longeva e perguntavam sobre os acontecimentos mais importantes daqueles 80 anos. Ela então se deslumbrava com a curiosidade geral e respondia alegre e enfaticamente a cada um deles.

Havia música, dança, bebidas, canapés e as pessoas pareciam extasiadas com a atmosfera nobiliárquica que pairava no ambiente. O relógio bateu 10 horas e a velha senhora, inteiramente absorta pela atenção dos convidados, esqueceu-se de ligar para o filho poeta. 

Passados apenas 2 minutos das 10 horas, surpreendentemente todos os convivas se afastaram e Mirela ficou sozinha. Desesperada, tentou ligar para a ilha, mas ninguém respondeu. Abraçada ao filho mais novo, caiu em prantos, pois sabia que tinha sido seduzida pela vaidade, a mãe de todos os pecados humanos.

Enquanto isso, no exílio, o corpo do poeta permanecia sendo carregado pelos ventos. As dores continuavam excruciantes, mas agora eram suplantadas por outra ainda pior: a sanguínea traição de quem se ama.

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Como reconhecer um idiota

Se há um tipo de gente que o Brasil deveria exportar com urgência para reduzir o número de sacripantas que infestam nosso ambiente social, este tipinho é o idiota. Mas, como reconhecer prontamente estes cidadãos insuportáveis? Quais características os distinguem dos demais seres humanos racionais e equilibrados?

Pois bem, vou oferecer aos leitores e leitoras 10 itens que certamente os ajudarão a fugir e sair gritando, assim que avistarem um destes pentelhos oleosos.

O idiota é, acima de tudo, um presunçoso que só pensa em si mesmo, mas também um metido. Vamos dar um exemplo: alguém que não conhece nada de golfe, mas depois de pesquisar na internet e assistir comentários de especialistas no YouTube, começa a palpitar como se fosse um expert no assunto há 50 anos. Isto vale, é claro, para os metidinhos que se arvoram a falar sobre política, religião, aquecimento global, etc. Um antídoto para deixá-los imediatamente incomodados é perguntar quais sociólogos ou cientistas políticos estão lendo no momento. O silêncio será aterrador.

O idiota será sempre inoportuno e sem noção. Imagine um funeral onde as pessoas estão pranteando a pessoa querida que se foi. Pois bem, o idiota não se aguentará e precisará contar piadinhas ou fazer gracejos completamente fora de hora.

Este sujeito presunçoso e inoportuno sempre estará sorridente. Isto é incrível e já mereceu estudos em psicologia social. Desconfio que disseram a eles que pessoas bem sucedidas e vitoriosas devem aparentar felicidade constante. E os idiotas por serem idiotas acreditaram na falácia.

Os pentelhos sempre conhecem alguém importante, podem reparar. Você está falando sobre futebol com o sujeito e lá pelas tantas, ele diz que o irmão trabalhou com o Pelé. Ou ainda, você está comentando sobre o Silvio Santos e o chato imediatamente diz que conhece um dentista que trabalhou com o dono do SBT, etc.

Um idiota nunca terá dúvidas sobre nada. Jamais dirá que está estudando a fundo determinada questão para ter uma opinião mais avalizada sobre o assunto ou mesmo, que está indeciso e não pode, por hora, deliberar.

Um energúmeno desses, por incrível que pareça, achaque é o ponto alto na escala da evolução humana. Todo idiota se acha irresistível e sedutor, a despeito das evidências sugerirem o oposto.

Você nunca encontrará um idiota calado. Ao contrário, esta espécime precisa patologicamente exibir seus “dons” e “conhecimentos” ao maior número de pessoas possível.

Um típico idiota adora falar alto, gesticular muito, gargalhar sem medo de ser feliz, mesmo que a ocasião desaconselhe por completo a atitude extrovertida.

O energúmeno adora acusar e apontar os defeitos alheios. É incapaz por seu turno, de reconhecer seus próprios erros ou fracassos. Exatamente por isso, o idiota é sempre um mentiroso que precisa indigitar os outros para camuflar a fragilidade emocional que o caracteriza desde sempre.

Por fim, mas não menos importante, idiotas nunca fazem elogios sinceros ou são genuinamente generosos. Estes metidos à besta são tão autocentrados, tão ensimesmados, tão egoístas que só conseguem falar de um único assunto: deles mesmos e seus feitos heroicos. É ou não é um porre?

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Sofrimento em estado bruto

Toda semana Alaor levava o filho de 13 anos ao hospital central da cidade em busca de medicamentos raros e caros. O menino sofria de um distúrbio neurológico severo que lhe causava constantemente convulsões e desmaios repentinos. Por ser incurável, o máximo que Alaor podia fazer era tentar amenizar o sofrimento do jovem e dar-lhe o mínimo necessário para continuar tocando a vida.

Mas não era nada fácil. A família morava no extremo sul da cidade de São Paulo e para chegar ao hospital, levava quase três horas entre trem, metrô e ônibus. Às vezes, os remédios faltavam e o drama de Alaor beirava o insuportável, vendo o filho padecer sem ter as mínimas condições financeiras para comprar os anticonvulsivos.

No trajeto para o hospital, esgueirando-se entre a multidão de passageiros, ele e o menino pareciam indigentes. Roupas muito pobres, rostos lancinados pela vergonha, olhares perdidos de quem se acostumou, durante boa parte da existência, a viver da caridade alheia. Claro que havia gente boa durante a viagem até o hospital, gente que se levantava para o rapaz poder sentar-se, que oferecia sanduíches e bebidas. Mas Alaor agradecia às pessoas com um sorriso mitigado, envergonhado, amarelo. O que seria do seu pobre filho, quando ele se fosse?

Separado da segunda mulher e desempregado há 4 anos, ele vivia do dinheirinho que o irmão enviava todo mês, cerca de 900 reais. Não havia muita comida em casa, nem móveis, nem nada e quase tudo era destinado ao filho. Para ele, Alaor, apenas o suficiente para não morrer de fome.

Durante uma crise mais acentuada, a quarta na semana, Alaor intuiu que suas forças estavam definitivamente perdidas. Ele, homem temente a Deus, estava exausto e desesperado. Pensou em colocar um fim definitivo no drama cotidiano. Planejou a própria morte e a do menino, mas sabia de antemão que na hora H não teria coragem para perpetrar a loucura. O jeito era engolir a seco os cacos de vidro que a existência lhe dera e continuar acreditando que um dia, milagrosamente, as coisas iriam mudar.

Na igreja que frequentava toda sexta-feira, Alaor convivia com histórias muito parecidas com a sua. Eram filhos drogados, violência e abandonos de toda espécie, desemprego, falta de moradia, de saneamento básico, de dignidade. Numa noite chuvosa durante o culto, todos estavam em comunhão, cantando com extremo ardor a conhecida canção que dizia: “pelos prados e campinas eu vou… Tu és, Senhor, o meu pastor e por isso, nada em minha vida faltará”. 

Alaor enxugou as furtivas lágrimas, saiu da igreja, passou na venda perto de casa e comprou uma barra de chocolate branco. Junto ao filho na sala de estar, saboreou vagarosamente o doce. Ofereceu um pedaço ao menino que parecia estar em paz, com o semblante corado. Talvez estivesse feliz naquele momento e como se parecia com a mãe!

Ambos adormeceram com o gosto do chocolate barato na boca, mas naquela mesma madrugada as convulsões voltaram e os cacos de vidro da existência mostraram uma vez mais suas terríveis garras.

Alaor – ou será Manoel, José, Pedro? – quer voltar à igreja o mais rapidamente possível para cantar e cantar e cantar e, em êxtase místico, esquecer o sofrimento em estado bruto que marca indelevelmente o coração das criaturas humanas.

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A solidão dos átomos terapêuticos

Os místicos de várias religiões argumentam que a solidão é condição fundamental para termos um contato direto com a divindade. Este raciocínio pressupõe que o barulho produzido pelos seres humanos, principalmente nos grandes aglomerados comerciais, dificulta enormemente a escuta da palavra de Deus. Em outros termos, quando os homens falam, Deus fica com tédio, se aborrece e sai de fininho de cena.

Chamemos de positiva ou ascética este primeiro tipo de solidão e dela nos ocuparemos em outra oportunidade. O que nos preocupa agora é outro tipo de patologia social, aquela que os sociólogos de cariz durkheimiana reputam como falta de vínculos sociais ou, simplesmente, anomia. Neste segundo caso, Deus afastou-se do mundo e, quanto mais os homens falam, menos queremos ouvi–los, uma vez que estes ruídos nos são indiferentes ou ao menos não nos dizem respeito diretamente.

A imagem que me vem à mente é de uma enorme tela de televisão, vociferando palavras ao vento, enquanto a multidão passa ao largo, rumo aos afazeres cotidianos. Não é por acaso que países como a Inglaterra ou o Japão criaram os ministérios da solidão, ocupados do gravíssimo problema de milhões e milhões de indivíduos que se sentem ensimesmados, perdidos em um mundo atulhado por pessoas impassíveis às suas existências. Disso decorre uma quantidade expressiva e aparentemente incontrolável de suicídios, crises de sociabilidade de todas as espécies, fobias generalizadas, etc. Sem falar no número de pessoas que consomem diariamente antidepressivos, ansiolíticos ou controladores de atenção neurovegetativa.

Trata-se de um emblemático sintoma da solidão contemporânea que diz respeito a anciãos já muito vividos e jovenzinhos de 12, 13 anos de idade. No caso da Inglaterra, o adolescente sai de casa quando termina o ensino médio, vai para um centro grande, estuda em faculdades, começa algum tipo de relacionamento romântico, acaba por morar com o companheiro ou companheira, para logo a seguir voltar a ficar solteiro. Filhos são cada vez mais raros e os pais e a família como um todo passam a ser figuras distantes, enevoadas, perdidas na memória. Em outro âmbito, o trabalho com seu intrínseco anonimato (aqui o que importa é a performance no cargo, as funções requeridas, independentemente das pessoas de carne e osso que as ocupam) acaba sendo uma fonte de frustração também. Afinal de contas, você não é o Eduardo ou a Cristina com suas preferências estéticas ou singularidades psíquicas, mas apenas o gerente de relacionamento ou o analista júnior de tal ou qual empresa.

Ademais, a própria habitação nas gigantescas cidades tende a fazer do ser humano alguém atomizado, invisibilizado em enormes condomínios, onde mal sabemos o nome do nosso vizinho do andar de cima ou mesmo conhecemos aqueles que dividem os espaços de lazer conosco. A solidão dos átomos terapêuticos é a solidão de quem precisa pagar para ter amigos (há agências deste tipo em inúmeras cidades do Japão) ou contratar figurantes para tornar a própria festa de formatura mais animada.

Mas, existem aqueles que, apesar das evidências psicossociais, argumentam que nunca fomos tão livres, tão preocupados com o bem-estar do planeta, nunca a ciência nos prometeu tanto em relação à saúde física e mental. Em geral, estes profissionais ganham fortunas com livros de autoajuda ou estão em consultórios chiques, proclamando aos incautos pacientes: “deixe as amarras de lado, permita-se ser quem você é (seja lá o que signifique isso), liberte-se dos preconceitos impingidos pela sociedade opressiva, patriarcal e cristã”. Claro que, para ouvir estas sábias considerações, alguns estão dispostos a pagar dois, três mil reais por sessão terapêutica.

Eu penso que apenas os poetas podem capturar o drama deste mundo dominado por ideologias niilistas e perceptível no desespero sutil das multidões solitárias. Renato Russo foi direto ao ponto, quando cantou a angústia de uma geração inteira: “parece cocaína, mas é só tristeza”.

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Descrição de uma janela entreaberta

A luz outonal vinda da janela entreaberta espraiava-se pela amplitude da sala de estar, iluminando até mesmo os móveis mais refratários à claridade, como o imenso sofá de couro mobly vindo da Inglaterra, repousando no canto esquerdo do ambiente. No centro uma mesa igualmente robusta refletia a luz fria derramada pela fresta cuidadosamente aberta por mãos humanas ciosas por ventilação e amenidade.

A opulenta e centenária janela, feita de carvalho brasileiro da mais perfeita artesania, convidava-me a lançar os olhos pelas imensidões agrestes do sertão mineiro. E eu de bom grado aceitei o convite, deixando o espírito devanear pelos caminhos azulados das três horas da tarde, quando todos os seres vivos parecem descansar da labuta imposta pelas manhãs tonitruantes de afazeres e compromissos incontornáveis.

Mas, o meu espírito aturdido não buscava repouso nestas paragens de águas plácidas, brotando aqui e ali por entre as pedras calcinadas e agitadas pela ventania das montanhas solitárias de Minas Gerais. Muito pelo contrário. A janela entreaberta emoldurava meus pensamentos como um bloco solente de radículas, enquanto eu buscava, às apalpadelas, encontrar poesia nas ramagens alvejadas pelo calor e que atraíam a atenção de pequenos animais ávidos por um naco, por menor que fosse, da embriaguez da vida oferecida ao observador.

Detive-me então, com mãos curiosas, a investigar melhor a compleição da janela que serpenteava o meu próprio ser. Quantos anos teria a construção esculpida a cortes precisos e matemáticos no carvalho marrom? Quantos seres humanos, matutos ou escorregadiços como eu, teriam se deslumbrado com as paragens bucólicas, eivadas de misteriosos sons emanados dos pássaros, sobretudo os curiós, guaxes e galos-de-campina, multiplicando-se como numa cantata sagrada?

O luzeiro do sol declinava sobre o chão avermelhado e rugoso da sala de estar, mas o cerne do que eu vislumbrava enchia meu intelecto de espanto e muita alegria. 

Como é bom constatar a inteligência humana transformando a matéria bruta da natureza, a majestade do carvalho, em algo útil e belo, para dar-nos moradia em um mundo compartilhado por utensílios como aquela janela que descerrava a paisagem.

À terra sempre estamos a voltar desde a aurora dos tempos. Entranhados neste segredo cósmico aprendemos a cultivar pensamentos sublimes, através de olhares curiosos, como era o meu naquele dia de outono em Minas Gerais.

Pela última vez, então, pus as mãos na madeira imponente e nobre, acariciei-lhe os contornos, fitei as fissuras descoloridas do marrom, enfiei o dedo médio numa fratura, numa lasca nascida no decorrer dos anos e ouvi um som profundo nascido do coração das matas virgens do Brasil. Quis, não saberia explicar a fome ingênua, construir uma filosofia nova, um gesto político que refundasse um mundo pleno de luzes, pássaros, utensílios, madeiras maciças.

Fechei a janela que insistia em seduzir o sol muito vagorosamente como num ritual de celebração à divindade tanta vezes esquecida da condição humana.

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Diante de quem você chora as suas misérias?

Se você chora as suas misérias diante de pessoas anônimas e desconhecidas, saiba que está cometendo um erro gigantesco, porque estes sujeitos serão os primeiros a duvidar da sua sinceridade, além de se aproveitarem de sua fragilidade emocional para perpetrar todo o tipo de maldade, como o sarcasmo ou o deboche, por exemplo.

Se você chora as suas misérias diante dos amigos, tome muito cuidado também. A história humana está cheia de casos em que os supostos companheiros acabaram por trair a confiança daqueles que ingênua e desavisadamente abriram confiantes os devastados corações.

E quanto aos familiares, devemos chorar nossas misérias mais amargas diante deles, uma vez que são o sangue do nosso próprio sangue? A resposta de novo é negativa, pois os membros da família, não raras vezes, são os mesmos que apontam o dedo e dizem sem dó nem piedade: “Tá vendo? A culpa é toda sua!”. “Bem que eu avisei, isso nunca daria certo!”. “Poxa como você é fraco!”.

Mas, então não há saída? Não há ninguém para revelarmos os miasmas mais íntimos? A resposta é peremptória, pois nasce baseada no maior livro já escrito desde a criação do mundo, o Eclesiastes.

Jamais confie seus horrores ao bicho humano. Confie tão somente em Deus, prostre-se diante Dele em silêncio e solidão e confesse os pecados. O Altíssimo já os conhece perfeitamente, mas Ele quer arrancá-los de sua boca trêmula e hesitante. Arrependa-se de todo o mal feito e peça ajuda no que necessitar.

Deus é como um pai generoso, tem o coração mole e acaba dando tudo o que o filho lhe pedir.

Mas, atenção: diante do sagrado não há como mentir ou tergiversar. Portanto, esqueça as desculpas esfarrapadas, retire as máscaras costumeiras e o vitimismo infantil (prevalecente em nossa sociedade) e revele o que vai no mais profundo do seu ser atormentado. Deus quer escutar os momentos nos quais as paixões e os vícios foram irresistíveis. Não tema a confissão das fraquezas, mas perceba o quanto elas te transformaram numa criatura triste e ranzinza.

Concordemos neste ponto: o que é a condição humana, senão uma batalha renhida e ininterrupta contra nós mesmos, nossas impurezas e as manipulações ardilosas do mundo?

No misterioso plano divino está inscrita a frase dourada: “eu quero ver você lutar e lutar e lutar, dia após dia, noite após noite”.

Esta é a essência do nosso cotidiano. Guerreamos o tempo todo contra a morte, as injustiças, a falta de amor, as doenças e os sofrimentos morais.

Mas, em nossos momentos de alegria (poucos é bem verdade) nos sentimos plenos, fortes, extasiados e temos aí uma prévia do que acontecerá um dia, quando estivermos face a face com a luz perene irradiando bem aventurança. Esta luz metafísica é a única capaz de nos consolar e dar autêntica e sólida esperança aos dias precários.

Talvez você argumente, do alto do ceticismo pós-moderno, que não pode tocar o transcendente porque crê nos intelectuais que dizem ser Deus alienação da consciência (Marx) ou ilusão inventada pelos fracos (Nietzsche).

Repitamos: nunca confie nos homens, por mais sábios que eles pareçam ser. Busque a solidão e o silêncio, porque o eterno só pode ser percebido nestas circunstâncias longe do convívio humano. Comece o diálogo devagarzinho e uma voz saindo da claridade lhe dirá amorosamente: “QUE A PAZ ESTEJA CONTIGO”!

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Para ser um homem charmoso

É preciso, acima de tudo, saber escolher as roupas adequadas. Por isso, opte por cores sóbrias e clássicas; entretanto, deve-se acrescer à serenidade um toque exótico. Por exemplo, use o costume azul marinho, adornado por um pequeno lenço liso, vermelho ou azul claro.

O corte é fundamental, dizem os estilistas. O caimento deve ser enxuto e confortável, seguindo o emolduramento do corpo. Usa-se hoje, graças aos italianos, as barras das calças cada vez mais curtas. Elegantíssimas. Exagere nesta tendência porque ela veio para ficar.

Um bom e sofisticado perfume também distingue – e como o faz – o homem charmoso. Prefira sempre os tenramente amadeirados, em especial os fabricados com cedro ou sândalo. Mas, neste caso vale a parcimônia: jamais use a fragrância em demasia, muito pelo contrário, o aroma duradouro e intenso deve impregnar a pele e o ambiente de maneira suave, sem alardes, nem exibicionismos.

Ouse na medida certa e construa um estilo absolutamente próprio! Que tal camisetas customizadas e sem barras, cortadas em decote V, acompanhadas por um bom jeans e tênis sneakers?

Para os irmãos carecas vale a dica de ouro: abusem dos chapéus e gorros em todas as ocasiões e em qualquer hora.

Óculos são um capítulo à parte: invista nas marcas realmente sofisticadas (sim, são caras e difíceis de encontrar, mas valem cada centavo). Minhas preferidas são a francesa Lesca, a alemã Lunor e a inglesa Cutler and Gross. Use modelos pequenos com aros grossos que realcem o alcance e a beleza do olhar. Óculos grandes somente os escuros que podem ultrapassar as sobrancelhas, mas não podem atrapalhar o movimento das maçãs do rosto em eventuais sorrisos.

Homens modernos usam mochilas e não pastas envernizadas, ultrapassadas e algo caretas. Sapatos sociais apenas em eventos específicos. Prefira o despojamento, mas com um toque de (des)elegância punk. Blazer e camisas desestruturadas com cores fortes são uma ótima opção. Relógios paulatinamente vem perdendo força na moda masculina.

Mas essas dicas de nada valem se você não cuidar de sua vida interior e dos gestuais perpetrados neste grande teatro que é o mundo.

Lá vão algumas regras gerais: o homem charmoso sempre fala baixo e discretamente. É educado e atencioso, independentemente da ocasião e das pessoas às quais se dirige. Você sempre vai ouvi-lo dizer bom dia, obrigado, sinta-se à vontade, por favor, etc.

Uma de suas características mais marcantes é o olhar atento e acolhedor, mas nunca invasivo ou bisbilhoteiro. Seu jeito de andar é viril e austero. Os ombros estão sempre aprumados. O tórax é o centro irradiador de sua natural sensualidade. Os passos nunca são excessivamente apressados nem flacidamente lentos.

O homem charmoso desfila com a singeleza de quem conhece todas as belezas e imperfeições humanas. Raramente discute política ou religião ou o que quer que seja, ao contrário, ao invés de perder tempo com vaidades inúteis, prefere ouvir música em silêncio para alcançar os momentos de transcendência e paz que todos nós, no fundo, sempre almejamos.

O homem charmoso é divertido. Gosta de encontros românticos reservados e excitantes. Toma sol à farta, pratica atividades esportivas, lê sempre poesia e jamais se deixa impressionar pelas imanentes misérias do mundo. Para ele, a cultura dos moralistas escandalizados, das celebridades e das elites presunçosas simplesmente não existe. Por isso, tem o semblante iluminado do guerreiro, maduro e misterioso como se pertencesse a outro mundo, muito melhor que o nosso.

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O memorável Abutre de Franz Kafka

Chama a atenção nesse conto de Kafka, publicado em fins do outono de 1920, a brevidade do relato e a extraordinária força simbólica contida no enredo.

Um abutre bica impiedosamente os pés de um homem. Uma pessoa que passava no local nota a cena e fica chocada. Pergunta ao homem como suporta aquilo e este lhe responde que já esgotou todas as forças para conter o pássaro. O passante promete então ajudá-lo e se prontifica a pegar uma espingarda em sua casa. Foi quando o abutre, que tudo escutava, voltou-se para o homem imperialmente, sem duvidar do que deveria fazer: olhou-o como a anunciar a morte iminente e o atingiu em cheio na boca. O homem morre, mas o abutre também sucumbe, mergulhado no sangue que envolveu a ambos.

A trama nos remete diretamente à metáfora e ao simbolismo literário tão caros a Kafka. Se pudéssemos usar aqui uma interpretação religiosa, veríamos o abutre como o perseguidor implacável que tudo observa, ferindo a carne humana recorrentemente.  Como aquele que possui a capacidade divina de perscrutar os gestos terrenos ubiquamente.

Se acompanharmos a cena como uma fotografia de apreensão psicológica, de angústia e de terror, então poderíamos falar do abutre como uma metáfora deliberadamente urdida, como se fora ele próprio um inquiridor, sempre à espreita, detentor do veredito final, que controla o tempo e seus avatares e sabe a hora certa para perpetrar o ataque definitivo, sem hesitações que possam colocar em dúvida a certeza e a correção ética do voo em direção às chamas finais.

Notemos a atitude da vítima. O homem sabe perfeitamente que o abutre o acompanha, sabe do vaticínio imposto à condição humana: aconteça o que acontecer, não sobreviverás! E, apesar dos esforços inúteis para escapar das bicadas e fugir da angústia implacável, conhece perfeitamente o seu destino. Está fadado ao que lhe foi imposto pelas deusas parcas e o desalento de seus gestos o comprovam.

Entretanto, analisando a altivez das personagens em Kafka, para quem “o herói é igualmente aquele que tem a coragem de assumir a própria miséria”, percebemos por que o protagonista não tenta (ao contrário da sofreguidão de um Jó) enfrentar a situação opressiva, buscando forças dentro de si, ansiando por um cerne de racionalidade em que possa entrever as causas da perseguição.

Não há no conto menções a quaisquer momentos de interioridade, de introspecção, de busca de sentido. Afinal de contas, por que ele deveria experimentar a aflição de ser o objeto daquelas bicadas, do inexcedível voo que o consumiria? De onde veio o pássaro sinistro? De quais latitudes? Seria o abutre uma oblação oferecida pelos inimigos aqui da terra ou cultivada pela agricultura sagrada lá nos céus?

Danillo Nunes, analisando o consolo do protagonista em sucumbir junto ao sangue do abutre, cita a parte final do pequeno conto: “Ao cair de costas senti como uma libertação, que em meu sangue, enchendo todas as profundidades e inundando todas as margens, o abutre se afogava irremediavelmente”. Mas o homem nada pergunta e a conversa com o passante sugere antes, conhecimento do infortúnio do que esperança em acabar com o sofrimento.

No desfecho da história em que o sangue tudo redime e reconforta, temos a súmula do intrigante texto kafkiano: somente o homem sagrado, aquele desprovido de interesse próprio, que não faz perguntas em demasia, pode libertar-se da opressão que caracteriza nossa consciência de existir em meio a agourentos pássaros econômicos, sociais e políticos. Pensando bem, desde Adão e Eva estamos morrendo afogados junto ao sangue de nossos assassinos.